Juiz de Fora

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Diretor desperdiça livro de Saramago (368)


The enemy
(2014)


Adam Bell (Jake Gyllenhaal) é um professor estadunidense que leciona História em uma universidade de Toronto. Entediado, ou até mesmo deprimido, assiste um filme banal no qual atua um sósia seu, Dennis St. Claire. Dennis (Gyllenhaal) faz o tipo ator-canastra-sexy-confiante-playboy-triunfante ao passo que o professor parece ter medo da própria sombra. O docente vai atrás do ator, que a princípio o repudia com veemência. Mas passam a trocar de identidades.


Baseado em O homem duplicado, de José Saramago (2002), este filme é curto demais e pouco explora o que me parecia um tema - ou dois - muito bons: a identidade de cada um e a possibilidade da busca da felicidade na pele de outra pessoa. Soma-se a isto o fato de que a ótima atriz Mélanie Laurent não recebe um papel à altura de sua competência, aqui ela pouco mais faz do que exibir o corpo, como namorada de Adam

Fiquei curioso para ler o livro de Saramago, mesmo sabendo que todos os seus livros são enfadonhos (eu li uns oito), por pelo menos duas razões, a inclusão de diálogos no corpo do texto, entre vírgulas, em parágrafos de várias páginas, e a sua lamúria oh-por-que-não-são-todos-comunistas-como-eu?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Caricatura americana dos franceses por um francês (367)


A família
(2013)

Normandia, na atualidade. Um mafioso (Robert de Niro), sua mulher (Michelle Pfeiffer) e filhos mudam para o norte da França como parte do programa de testemunhas, após a delação contra os seus comparsas. Mas todos têm o hábito de resolver os aborrecimentos na base da porrada.

Eu sempre me perguntei porque os estadunidenses se sentem tão inferiores aos franceses. Será por causa da moda? da gastronomia? da língua charmosa? de Paris? Aqui eles tentam fazer exatamente o oposto: os franceses são tratados como feiosos, burros, caipiras, tapados, burocráticos, presunçosos, com serviços inoperantes e atrasados tecnologicamente. Tudo no filme como antítese do que a França é.

O filme é uma grande bobagem, e ao final descubro que foi dirigido por um francês, o péssimo Luc Besson, que já fez dezenas de filmes e nenhum relevante. Ora, vá... E eu me pergunto, por que o milionário Robert de Niro entra numa fria dessas?

domingo, 27 de abril de 2014

O Panótico não vê aqui e agora (366)


A imigrante
(2013)

Nova York, anos vinte. A polonesa Ewa (a brilhante Marion Cotillard) chega à Nova York, com a irmã doente (coitadinha) fugindo de sua pátria após o homicídio de seus pais na primeira guerra. A irmã é internada na ilha de Ellis para tratamento (coitadinha). Ewa não quer se separar dela (coitadinha), quase é deportada (coitadinha), mas é salva por um advogado que suborna um policial para que Ewa fique. Mas o advogado na verdade é um cafetão (coitadinha) que a coloca no vaudeville (coitadinha) e a pressiona a se prostituir (coitadinha). Ela foge e atravessa a pé a ponte do Brooklin para encontrar os tios (coitadinha). Os tios a protegem, por obra de Deus já que Ewa é uma católica devota (coitadinha), mas a polícia no dia seguinte a prende por prostituição (coitadinha).

Eu me pergunto, após ver meia-hora deste pastiche, por que desperdiçar esta atriz com um filme tão ruim?!

terça-feira, 22 de abril de 2014

Mais um filme argentino de valor. (365)


O segredo de seus olhos
(2009)


Buenos Aires, 1999. Benjamín Espósito (Ricardo Darín, o Antonio Fagundes argentino) é um policial civil aposentado que decide escrever um romance sobre um caso insolúvel de um quartel atrás: uma jovem dona-de-casa é estuprada e morta, um chefão corrupto incrimina dois pés-coitados e o nosso protagonista decide enfrentar a burocracia e instâncias superiores para prender o verdadeiro culpado. Espósito é apaixonado por sua chefe, uma futura promotora de família rica e influente. Simultaneamente, se compromete ao viúvo da vítima identificar e prender o estuprador, contando apenas com a ajuda de um subalterno alcoólatra.


Baseado em obra literária, o filme tem a típica trama noir que é sucesso garantido: o paladino falível, mas ético, um amor quase impossível, reflexões soturnas sobre o significado da vida, políticos e policiais corruptos, a fronteira cinzenta entre o Bem e o Mal, reviravoltas, pistas falsas, etc. É uma fórmula? Sem dúvida.


Mais uma vez eu penso que o cinema brasileiro deveria deixar de ser pretensioso, gramsciano, populista, petista, etc., e tentar fazer algo básico mas que justifica o gasto público.

domingo, 20 de abril de 2014

Traffic (364)



Traffic
(2000)


Um policial mexicano honesto (Benicio del Toro), um juiz que quer combater o narcotráfico mexicano simultaneamente em que se depara com a própria filha adolescente se afundando nas drogas (Michael Douglas) e uma dona-de-casa dondoca que é pega de surpresa quando o marido rico é preso por tráfico em San Diego (Catherine Zeta-Jones) são os personagens principais nesta trama interligada que lembra a globalização de Babel.


Dirigido por Steven Soderbergh (diretor de bons e tão diversos filmes como Sexo,mentiras e videotapes, Solaris, The Girlfriend experience, Behind the candelabra e o show do Yes da turnê 90215) este é o melhor filme sobre o tema que já vi. Do mesmo nível só mesmo a serie de tv The Wire, já resenhado aqui. Acho que tudo o que envolve o assunto foi analisado com profundidade: as diferenças entre o México pobre e os EUA ricos, as diferenças entre os EUA ricos e os EUA pobres, a política de combate às drogas como espetáculo, o hedonismo niilista dos jovens mimados, etc.

Eu queria ter assistido este filme anteriormente, mas o perdi nos cinemas, não o aluguei em locadoras - até então - e não o vi nos canais pagos.



Fiquei mais convicto que uma eficiente política contra as drogas, ou contra qualquer produto nocivo à saúde, passa em primeiro lugar pela prevenção e pelo não-consumo. A repressão é pouca eficaz e gera novos esquemas de corrupção.

domingo, 13 de abril de 2014

Os incompreendidos (363)



Os incompreendidos
(1959)


Paris, 1959. Antoine Doinel é um adolescente que apresenta pequenos problemas de disciplina na escola masculina. O seu professor de francês é duro com ele, e sua mãe, uma funcionária de escritório, dá-lhe pouco amor e carinho e o trata como se o garoto fosse um fardo. O seu padrasto é mais atencioso, mas faz um tipo perdedor. Antoine mata aulas em uma ocasião e vê a sua mãe beijando um amante na rua.



Este é o quarto filme de François Truffaut (1932-84), diretor que dispensa maiores comentários. Com conteúdo autobiográfico (Truffaut não conheceu o pai, foi rejeitado pela mãe, criado pela avó e mau aluno durante m período da vida), trata do abandono na adolescência e da forma como os menores buscam atenção e compreensão dos adultos. Gostei das locações em Paris e do humor inteligente do filme. Como muitos filmes dos anos cinquenta, a emoção é meio cru e não há a exploração a fundo dos temas sociais. Consegui sentir pena do protagonista e ficou claro para mim a desproporção das sanções em relação aos pequenos delitos praticados pelos garotos.

Assisti este relançamento no festival Varilux de cinema francês, em um cine no centro de Juiz de Fora. Embora o cinema francês atual não me empolgue, fico chateado por este festival não ser mais exibido no shopping perto de casa. Ir ao centro para ver filme é desestimulante.


sábado, 22 de março de 2014

Polanski decepciona com um filme previsível (362)


Venus in Furs
(2013)


Um dramaturgo parisiense (Matthieu Amalric) quer encontrar uma atriz para o papel de Vanda, protagonista do clássico A Venus em peles (1870) do escritor austríaco Leopold Masoch, que deu origem ao tema masoquismo, conforme o próprio filme explica nos diálogos iniciais. Vanda (Emmanuelle Seigner, esposa do diretor Polanski) chega atrasada para o teste e causa péssima impressão por ser burra, mal-informada, enrolada, grosseira, decadente e usa todo tipo de estratégia para descolar o emprego pelo qual parece desesperada: insinuação, apelação, fazer-se de engraçada, de vítima, todo o repertório feminino...e funciona, o homem cai como patinho.


Há dois jargões surrados aqui: a bronca atriz, assim que começa a interpretar dá um show de interpretação, o diretor se empolga tanto que se transforma no personagem masoquista, confundindo criador e criatura, e mais uma vez diretores de cinema e teatro querem mesmo é usar a arte como artifício para seduzir mulheres que em circunstâncias normais não lhes dariam trela. Algo que poetas e músicos também são expertises.

domingo, 16 de março de 2014

Irmãos Coen sabem transformar um tema aborrecido em grande roteiro (361)


Inside Llewyn Davis
(2013)


Nova York, 1961. Llewyn Davis (Oscar Isaac) é um manezão cantor de (irch!) folk. Com uma eterna expressão de vítima o homem só faz cagadas. Dorme de favor implorado a quem aparece, não tem um tostão e é desatento. Os empresários do ramo e seus conhecidos o consideram um perdedor.

E o Justin Timberlake cantando um folkzinho?! 


Eu comecei a ver este filme com um pé atrás porque detesto folk (britânico, estadunidense, de onde for). E detesto aquela postura do tipo: "Ei, eu sou um artista, não me obriguem a trabalhar, eu sou sensível!". Mas este é um filme dos irmãos Coen que, ao contrário dos cineastas brasileiros, conseguem tirar leite de pedra (os compatriotas não tiram leite nem de vaca do Valhala), os caras sabem contar uma história. Achei demais também a cantorinha toda ternura, ex-namorada de Llewyn, que é uma megera histérica total, bem anti-folk.


E o final tem uma "aparição" de um futuro astro que é chave para entender o toupeira Llewyn Davis.

terça-feira, 11 de março de 2014

Um professor universitário estraga a minha noite de ópera.



Salomé
(2008)


Salomé foi composta por Richard Strauss (1864-1949). Tem por enredo o interesse da adolescente Salomé por João Batista. João Batista criticava publicamente a mãe e o padrasto da moça, Herodes, por sua vida de luxúria. Herodes sente atração por Salomé e esta dança para o tetrarca da Judeia. A sua esposa Herodias pede em troca a cabeça de João Batista. Esta ópera foi fundamentada em uma peça teatral de Oscar Wilde, estreou em 1905 e provocou furor na época. É uma produção que segue o modelo das óperas de Wagner (muito superiores às novelinhas italianas em forma de ópera, imagino eu).




Não sou versado em ópera, e não gosto tanto quanto outros gêneros musicais ou cinema. Mas gostei do que vi de Wagner, Orff e outros compositores e lamento que vivemos muito longe dos teatros europeus. Se eu pudesse assistiria mais óperas. Um teatro da aldeia em que vivo inaugurou uma série de noites de óperas com dvds do Metropolitan. Entrada gratuita, horário ruim (19h), capacidade para quinhentas pessoas e muita gente (uns vinte gatos-pingados, metade amigos do organizador). 

Havia lido no jornal local que o dvd seria exibido e após o término um professor universitário (quem é não vem ao caso) debateria a produção com quem se interessasse. Pensei: beleza, vou lá, assisto, e se for necessário e/ou enriquecedor ficarei para as explicações acadêmicas.

Mas, não. O professor pediu uns minutos para explicar a obra "para quem não é neófito". Os primeiros cinco minutos foram úteis, pois deu um panorama geral da ópera e a revolução wagneriana, nada que eu não soubesse, mas achei muito justo. Nos trinta minutos seguintes o professor explicou toda a Salomé, com uma riqueza de detalhes desnecessária, enfadonha, e que tirou de mim a possibilidade de descobrir elementos à medida em que assistisse o espetáculo.

Finalmente, após quarenta minutos de explanação começou o evento. Fiquei empolgado, cantores impecáveis, telão, som de qualidade, falas ágeis, enredo com matrizes psicológicas e com encadeamento racional, realmente entrei no clima, como se diz. Com quinze minutos, no entanto, o professor interrompeu e disse que eram necessárias novas explicações. Não acho.

Pôs-se a falar por mais trinta minutos, explicando não só o que todo mundo tinha entendido e visto, mas também anunciando o que viria a acontecer nas próximas cenas. A partir daí me aborreci de verdade e quando tomamos antipatia de algo e alguém é inevitável que você se irrite com o responsável. Com uma voz e postura infantilizada, dando saltinhos como o filhinho gordo e fofo da mamãe, passei a ver que chato é o professor, pronunciando mal em alemão nomes e palavras que poderiam ser ditas em português, mas ditas por alguém que se esforça em exibir o conhecimento de uma língua que pelo visto jamais estudou. Achei um tanto jeca ele repetir o adjetivo "magistral" para descrever as cenas. Levantei e fui embora, aquilo duraria até o fim da noite.

Professores de adolescentes de ensino público estão acostumados a serem rejeitados, sabem que os alunos não lhes querem dar atenção, por isto não forçam a barra. Já passei dezenas de filmes, centenas de vezes, explico o mínimo sumário e somente abro a boca quando ninguém entendeu nada. Mas na universidade a coisa é diferente. Estudantes universitários bajulam os professores para conseguirem bolsas de estudo e vagas na pós-graduação. Por isto os professores universitários realmente acreditam que aquilo que falam é brutalmente interessante. Fiquei pensando que alguém devia dar um toque no sujeito e pedir para que continuasse com a ópera, a diva está na tela não fora dela.

Não sei se irei nos próximos e se escrevo para a proprietária do estabelecimento e polidamente fazer algumas sugestões.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Doze anos de escravidão (360)



Doze anos de escravidão
(2013)



Sul dos EUA, 1841-53. Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um músico afro-americano talentoso e livre, vivendo em Nova York, com um padrão de vida de classe média, com família e prestigiado pelos brancos que o conhecem. Viajando a trabalho é sequestrado, confundido com um escravo de sobrenome Platt e levado para a Geórgia e outros estados escravocratas para trabalhar para diferentes donos. Durante doze anos é obrigado a esconder a própria identidade e sofre e/ou presencia os horrores da escravidão.


Assisti este filme com os dois pés atrás: um por ser de Steve McQueen, que já havia mitificado o terrorista Bob Sands e o IRA em Hunger e me cansado a feiura com uma atriz cantando New York, New York, de Sinatra, irch!, em tom melancólico; o outro pelo fato deste diretor ser queridinho dos afetados, e realizar um filme do tipo: "veja e ame, senão você é racista". Surpreendi-me positivamente, no entanto.


McQueen manteve a qualidade fotográfica de seus dois filmes anteriores. Northup no início é tratado com dignidade por todos, e tem a altivez e a compostura de um ser humano integrado e aceito na sociedade que o cerca. Não sei se o norte de meados dos século XIX tinha a postura da esquerda "liberal" do mundo contemporâneo, mas o contraste com o modo como é tratado no sul serve como eixo do filme. O sul é claustrofóbico, opressor e doentio. Fiquei o tempo todo comparando o filme com o Django Livre, gostaria de saber se superou, e de que forma, a análise da escravidão. Parece-me que o filme de McQueen é mais profundo. A escravidão no do ótimo Tarantino é enfocada no que ela tem de cerceadora e violenta: o indivíduo não se locomove livremente e ainda por cima apanha. Aqui a escravidão atravessa o indivíduo, consome as suas entranhas, retira-lhe boa parte de sua força.




No entanto, Northrup consegue manter a racionalidade, aceita o que pode e o que não pode suportar para manter de pé o seu objetivo que é o de restabelecer a sua liberdade. Muito importante no filme é a questão da unidade sócio-econômica, a fazenda é um vasto espaço aberto, não há cercas, mas é um mundo isolado e quase infenso ao exterior. Recorre-se constantemente à placidez do cenário, as referências ridículas à tentativa da elite de simular a cultura europeia - tal como filme de Tarantino e nas demais sociedades escravistas da América.

Há uma cena particularmente bonita do filme, o modo como a música é elaborada pelos escravos. O precursor dos blues e gospel já foi tratado no cinema e na produção acadêmica como lúdico e/ou marco do ritmo do trabalho. No filme de McQueen ele é um canto que vem do fundo das almas sofridas, achei que o seu contexto originário ficou bem alinhavado.

O longo relacionamento entre o fazendeiro Edwin Epps (Michael Fassbender, excelente como sempre) com a escrava Patsey (a premiada queniana Lupita Nyong'o), e por tabela, com Northrup/Platt, não é original no cinema, o dominador ama e odeia o dominado, despreza e inveja os seus méritos, a alta produtividade e sensualidade da escrava, o talento musical e a postura educada do protagonista. Epps fundamenta o seu sadismo na religião e no direito civil vigente, é o "educador" dos escravos e seu proprietário.Em suma, o que há de apelativo e marketing para levar o Oscar, com um tema edificante,não chega a comprometer o filme.

Fiquei curioso como o livro de Northup que deu origem ao filme ficou por tanto tempo ignorado da literatura, da historiografia e do próprio cinema, por que Spike Lee não o utilizou duas décadas atrás?

terça-feira, 4 de março de 2014

Por quê o cinema adora idiotas? (359)


Alabama Monroe
(2013)



Bélgica, 2006-2013. Um mané fã de música country se apaixona por uma "romântica" tatuadora. O cara parece que vive no Alabama e ela vive de emoções. Tem uma filha que, com seis anos, é diagnosticada com câncer. Lógico que ninguém vive com uma dessas sem se abalar.

Típico filme irritante. Escolha péssima de gênero musical, puxa-saquismo com público, imprensa e indústria cinematográfica estadunidense, e colocar uma criança com câncer logo de cara para ganhar a simpatia do público para com o casal que "vive a vida".

Vi vinte minutos e desisti.

Clube de compras Dallas (358)




Clube de compras Dallas
(2013)



Dallas, 1985. Ron Woodroof (Mathew McConaughey) é um eletricista bronco, beberrão, jogador, mulherengo e usuário de cocaína. Passa mal, é hospitalizado e lá é notificado de que está com Aids e sua expectativa de vida é de apenas trinta dias. Acreditando se tratar de um erro, o protagonista mantém o mesmo estilo de vida, seu estado piora, aceita o fato de que está com Aids e quer se submeter aos primeiros testes com AZT. Indeferido o seu pedido, passa a adquiri-lo de um auxiliar de serviços que os furta em um hospital.

Descoberto o seu esquema, vai até o México tratar com um médico estadunidense que perdeu a sua licença médica. O profissional critica o emprego de AZT e estabelece uma receita alternativa que surte efeito em Woodroof. Woodroof decide traficar estes remédios para os Estados Unidos e forma um "clube" de aidéticos e outros pacientes terminais que passam a lhe pagar quatrocentos dólares mensais pelas drogas que necessitarem.

O filme estabelece desde o início a desconfiança de que os laboratórios farmacêuticos apenas estão interessados em lucrar com a miséria alheia, com a cumplicidade das agências governamentais e parte da classe médica. A personagem de McConaughey nos ganha aos poucos, pois ele sintetiza quase tudo que rejeitamos nos rednecks: burrice, grosseria, preconceitos, jequice, breguice, etc. Jared Leto está em seu melhor papelde sua carreira, creio eu,  como a travesti sócia de Woodroof. E Mathew McConaughey, vinte anos após as primeiras promessas, finalmente se torna um ator de primeira. Gostei bem do filme, excetuando um clichezinho da médica (Jennifer Garner) que se "importa" com os pacientes, a ponto de se apaixonar por um deles.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O mais acessível dos Lars von Triers (357)


Ninfomaníaca. Volume I
(2013)

Joe (Charlotte Gainsbourg) é uma mulher inglesa encontrada desacordada e com traumatismo em uma rua por Seligman, um homem viúvo (Stelan Skarsgard). Joe não quer que o idoso chame uma ambulância ou a polícia, e aceita ser levada para sua casa. Lá ela conta a sua história e Seligman funciona como um ouvinte e terapeuta, embora mais afirmando o que crê do que lançando perguntas. Joe narra o seu interesse por sexo desde a infância, como perdeu a virgindade e como passou a deitar compulsivamente com qualquer um desde a adolescência. Joe se considera o pior dos seres humanos e sua narrativa tem o propósito de demonstrar por quê. O inteligente, culto e ético Seligman quer convencê-la do contrário.

Este é o sexto filme do cineasta dinamarquês Lars von Trier que assisto, e agora o conjunto de sua obra me faz mais sentido. Apesar do cinismo da narrativa, e do tom de comédia picante, von Trier é um humanista. A jovem Joe (Stacey Martin) afirma que o amor não tem a ver com o sexo, e ela não quer saber do primeiro. À medida que aprofunda no prazer quase automático sente cada vez menos o que quer que seja. Gostei bem deste filme, não há vanguardismos estéreis, é um filme que pode ser visto pelo grande público, com exceção de uma cena escatológica (as de sexo explícito não chegam a assustar e não são novidade no cinema sério, a não ser, talvez, pelo fato de Stacey Martin ser muito nova - e corajosa).


Foi a primeira vez que assisti um filme com lugares marcados, fruto de lei municipal recente, é ótimo poder comprá-lo, escolher calmamente no painel do guichê automático e não precisar guardar lugar na fila. Apesar do ingresso barato pelo luxo da sala (seis reais) tive que pagar mais outros sete pelo estacionamento. Só não gostei, mais uma vez, e isto não terá fim, das pessoas conversando, usando celular e uma jovem que comeu alimentos sintéticos malcheirosos sem parar durante hora e meia. Incomodou-me o fato dos mal-educados serem estudantes de uma faculdade de Psicologia que lá estavam no cinema como dever-de-casa.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Bela porcaria. George Clooney se tornou um mala (356)



Vamos logo ganhar tempo. Este filme supostamente baseado em uma história real é insuportavelmente insosso, sem-graça, aborrecido, soporífero. É inacreditável, tem o ritmo e o tom de comédia leve de filmes como Goonies e produções sub-oficiais sobre a segunda guerra do período da guerra-fria. São toneladas de clichês sobre americanos, alemães, russos, e, mais uma vez, sobre os franceses. Fiquei o tempo todo pensando, quem é que dirigiu esta merda? Fiquei desconfiado do cartaz, e do tom Caçadores da Arca Perdida. Temi referências com O resgate do Soldado Ryan e Band of Brothers (não deu outra). Mas eu não podia imaginar que um filme com os ótimos Jean Dujardin e Cate Blanchett, e os bons Matt Damon e George Clooney pudesse ser um abacaxi tão grande. O didatismo do filme é odioso, toca uma melodia ridícula toda vez que aparece uma obra de arte, algo do tipo: "Plateia, sensibilize-se." Jean Dujardin está lá apenas para mostrar a sua marca registrada, o seu largo sorriso. Cate Blanchett faz uma assexuada francesa com um sotaque carregado que não faz justiça ao inglês muito bem falado pelos parisienses, a despeito da humanidade supor que é o inverso. Leva-se uma hora e quinze para que o filme tenha uma cena interessante. Só não levantei e fui embora porque não tinha nada melhor para fazer. E, ao final, quem é que dirigiu este pastiche? George Clooney.

Eu havia sentido uma certa pieguice de Clooney no filme sobre os havaianos, mas agora estou certo que ele é um tremendo chato.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Uma excelente animação, mas que não é (mesmo) para crianças.(355)


Uma aventura Lego
(2013)


Em Brickville (parece Nova York) todas as atividades (inclusive livros de História) são controladas pela empresa Octano. O presidente da Octano, o Sr.Negócios, é também presidente do país. O jovem operário de construção Emmet é um fiel seguidor das normas da empresa e do país, e tido como superficial e bobão pelos colegas de trabalho. Um sábio acredita que Emmet é um "Mestre Construtor", uma pessoa especial capaz de derrotar o poderoso Sr.Negócios que quer destruir os legos que insistem em desobedecer os manuais e substituí-los por seus fiéis robôs. Para ajudar Emmet há diversos super-heróis.


Este desenho é muuuuuito legal. As piadas são ótimas, as referências a filmes e desenhos, sensacionais, é tudo muito inteligente e divertido. É a animação mais crítica ao capitalismo avançado que já vi, é uma aula de economia política sintética. O Batman é um show, esperto, malandro, ágil, mais divertido do que o Batman de Christopher Nolan. A qualidade gráfica, como sempre, nos surpreende cada vez mais, é tudo muito bonito e bem feito. Dá vontade de ver só para prestar atenção nas ações que correm paralelamente a cada cena.



Gostaria de alertar os pais intergalácticos que leem o meu blog. Este não é um desenho aconselhável para crianças (mesmo). A trama é para adultos e há uma cena particularmente aterrorizadora, quando o vilão congela os pais de um personagem. É muito realista o sadismo, eu que tenho quase meio século de vida fiquei impressionado. Eu sei que no Brasil há um papo de que não se deve censurar nada, não se deve esconder as coisas dos menores e é hábito adultos falarem de assuntos pesados diante das crianças e as mesmas costumam ver novelas até altas horas. Na França metade dos pais não deixam os filhos verem tv antes dos seis anos de idade. Lá as crianças são tranquilas, falam baixo, eu vi isto de perto. Aqui basta entrar em qualquer escola e ver o nível de agitação de crianças e adolescentes. Deixem as crianças serem crianças.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Panótico lê aqui e agora (39)


O assassinato de Kennedy foi um dos fatos mais impactantes dos anos sessenta. Para os muito jovens: John Fitzgerald Kennedy (1917-63) foi um rico político católico e presidente democrata dos EUA (1961-63). Simboliza a luta contra a segregação racial no sul dos EUA assim como o auge da Guerra Fria com a crise dos mísseis soviéticos (1962) e sua (propositadamente) frustrada tentativa de deposição de Fidel Castro, a invasão da Baía dos Porcos (1961). Foi assassinado em Dallas, Texas, em novembro de 1963, na companhia de sua esposa, Jacqueline, e do primeiro casal do Texas.

Quando eu era estudante de História a morte de Kennedy evidenciava para mim duas coisas: democratas eram parcialmente diferentes de republicanos, e havia presidentes dos EUA que não eram meros serviçais da burguesia e do capitalismo, do contrário, por que ele teria sido brutalmente assassinado? (e mais uma vez eu percebia que meus colegas e professores marxistas estavam muito enganados).

O filme de Oliver Stone, JFK, pareceu-me uma explicação plausível para o homicídio: máfia, CIA, o complexo industrial-militar decidiu por fim ao seu mandato para poder mandar bala em uma nova guerra, a do Vietnã. Mas nunca deixei de achar que havia algumas incongruências na visão do cineasta baseada no inquérito do promotor Jim Garrison (vivido no filme por Kevin Costner)

Este livro do jornalista Philip Shenon, do New York Times e autor de outro livro sobre o 11 de setembro é o tipo de pesquisa histórica que dou valor. Longa e exaustivamente pesquisado, repleto de fontes, inclusive inéditas, o autor é extremamente minucioso e não se exime de discutir todas as hipóteses.

Reconstituindo o trabalho da comissão de advogados presididas pelo presidente da Suprema Corte na época, o autor expõe o seu raciocínio.

Atenção, se não quer saber sobre as hipóteses, não leia:

a) O assassino foi mesmo Lee Harvey Oswald. Motivos possíveis: complexo de inferioridade por diversas razões e/ou vontade de se gabaritar para um exílio em Cuba. Oswald frustrou-se na União Soviética, mas continuava um marxista.

b) Três tiros foram disparados contra Kennedy, mas todos partiram de Oswald, um bom atirador e cuja arma fora adquirida por ele, encontrada no sexto andar do prédio onde atirou e trabalhava como funcionário público.

c) A conspiração que existiu foi a da CIA, do FBI, do Serviço Secreto (não confundir com a CIA), e da polícia do Texas por uma série de erros primários de proteção ao presidente, esse povo todo "deu muito mole" e dificultaram as investigações para camuflar a própria incompetência.

d) a investigação do promotor Jim Parsons foi eivada de má-fé e parece de que de fato o homem era louco.

Surpreso? Não acredita? Há boas razões para a nossa incredulidade. Então que se vá ao livro. A leitura às vezes é tediosa, devido ao excesso de detalhes, vou avisando.

SHENON, Philip. Anatomia de um assassinato. A história secreta da morte de JFK. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 681p.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Não é uma obra-prima, mas não é produto de trapaça (354)



Trapaça
(2013)


Nova York e New Jersey, 1978. Um casal de escroques - um dono de lavanderias (Christian Bale) e uma stripper (Amy Adams) - são pegos em flagrante por agiotagem e outros delitos, e pressionados a colaborar com um ambicioso agente do FBI (Bradley Cooper) que tenciona prender políticos e mafiosos.

O filme não tem nada de original, e é até meio lento em se tratando de produções estadunidenses, as comparações com O lobo de Wall Street e com a filmografia de Scorsese me parecem exageradas. Mas salvam-se: o canastra Christian Bale pela primeira vez me parece um grande ator; a bela Amy Adams lembra-me a norueguesa Liv Ulmann, musa e ex-amante de Bergman; Jennifer Lawrence de novo interpreta (muito bem) uma piradinha; e a trilha sonora, ah, meus caros e minhas caras, se você tem mais de quarenta e viveu as "brincadeiras dançantes" dos anos setenta com certeza vai adorar.

É o tipo do filme que se não ver não perdeu nada, mas se vê-lo vai gostar.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Roubava livros mas não roubou a minha atenção (353)



Alemanha, 1938. Uma menina é levada para viver com um casal simplório em uma cidade indefinida após a prisão de sua mãe comunista. Analfabeta, ela sofre bullying na escola, com exceção de um garoto fã do corredor Jesse Owens que se apaixona por ela. A menina assiste uma grande queima de livros pelos nazistas paralelamente ao seu processo de aprendizagem. Toma gosto por livros no que é apoiada pela esposa rica do prefeito nazista, por um refugiado judeu que se abriga junto aos pais adotivos e pelo próprio dono da casa.

Quando este livro foi lançado no Brasil eu quase o comprei. Mas meu faro para literatura de segunda me alertou, pois a editora não me inspira confiança (na verdade, em matéria de literatura estrangeira eu apenas ponho a mão no fogo pela Companhia das Letras). O filme me faz lembrar O caçador de pipas, best-seller que li e vi em tela, mas que considero apelativo, feito para sensibilizar o público estadunidense, utilizando-se de um tema válido e sério mas com abordagem caricata.

Este filme aqui é um abacaxi. O nazismo já é aterrorizador o bastante para necessitar de caricaturas. A menina ser analfabeta é inverossímil, já que era filha de comunistas alemães. A sua postura diante da perda do irmão mais novo, a perda da mãe, a sua adoção por um novo lar pouco receptivo, o tratamento sofrido na escola, etc e tal, é de um grau de maturidade implausível. O filme é muito didático, as pessoas de bem são muito boazinhas e sensíveis, as de má índole parecem vilões de desenhos animados da tv. É aquela coisa nojentinha do tipo: "Olhe, espectador, estes nazistas não são uns malvados? os judeus e os comunistas não merecem melhor tratamento? a cultura não é algo maravilhoso, não é feio queimar livros? as pessoas inteligentes não são sensíveis?".



Ir aos cinemas em noites úteis já não garante sossego. Mesmo com uma dúzia de espectadores não tive sorte de poder ver o filme em silêncio. À minha direita, na extremidade, um casalzinho falou durante todo o tempo, e à minha esquerda, na outra extremidade, uma jovem ligou o celular uma meia dúzia de vezes projetando uma luz branca em minha direção. Como eu vi que ela não desconfiava, lhe dirigi a palavra: "Moça, esta luz está me atrapalhando" "Oh, descuuulpa!". E aí, ela desligou de vez? Não, menos de dez minutos depois lá foi a tonta ligar novamente o celular (e o casal tagarelando). Pensei, ou dou um esporro (não devo) ou saio do filme que já estava ruim que chega há mais de uma hora. Decidi ir embora.

Quero ver como vou fazer para assistir Trapaça.

O Panótico quase perde um grande final (352)


Acima: o marido da filha cabeleireira, a própria, a esposa do primogênito médico, o próprio.
Abaixo: o caçula, okasaotosan e a namorada do caçula.


Uma família de Tóquio
(2013)


Um casal de japoneses que mora em uma pequena ilha, um professor aposentado e uma dona-de-casa, resolve rever os três filhos que vivem em Tóquio, cidade que jamais visitaram (Bom, eu conheço as capitais de três países mas nunca fui à Brasília). O filho mais velho é médico e mora na periferia da capital japonesa. Casado, sua esposa é a típica dedicada dona-de-casa e mãe, com dois filhos, um adolescente que não gosta de estudar e um garoto. A irmã do meio é cabeleireira e o caçula trabalha como assistente de cenários em uma companhia de teatro.


O pai tem orgulho do filho mais velho, reconhece que mimou a filha, mas guarda forte frustração contra o filho caçula, tido como inconsequente. A mãe é risonha, sente empatia por todos, nutre um carinho pelo marido que é raro de se ver entre casais longevos. Os filhos veem os pais como um fardo, não ao estilo latino como nos filmes italianos e brasileiros, mas com um senso de dever e reverência pelos ancestrais. Os pais sentem-se infelizes por perturbar o quotidiano dos filhos e netos, mas ressentem a falta de proximidade dos mesmos.


Este filme é um remake do clássico Era uma vez em Tóquio do cineasta Yasujiro Ozu (1903-63). Até alguns anos atrás eu pensava que o cinema nipônico se resumia a Kurosawa e Oshima (o que não é pouca coisa), mas lendo blogues especializados observei o culto existente a este cineasta. Não é para mim, é excessivamente lento e bate sempre na mesma tecla: o capitalismo desumaniza as pessoas, todos vivem em função da luta pela sobrevivência, as relações sinceras não tem como triunfar. Há uma meticulosa abordagem do microcosmo familiar, há riqueza de detalhes nos gestos e atitudes, e há o peso dos diálogos. Tudo sem trilha sonora ou efeitos impactantes, é preciso estar atento. Comecei a ver este filme mais pelas locações de Tóquio, já sabia que rumo tomaria. Mas...

...um dos últimos diálogos é incrivelmente belo.