Juiz de Fora

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Panótico vê aqui e agora (89)



Cópia Fiel
(2010)

O primeiro filme do diretor iraniano Abbas Kiarostami a que assisti foi Através das Oliveiras (1994) cujo tema repousa na insistente tentativa de um jovem camponês em convencer uma tímida e reprimida jovem camponesa a namorar com ele. Foi um pouco chato, mas é um filme que tem a sua beleza. Dois anos depois assisti O Balão Branco, este sim um filmaço, vitorioso de público em São Paulo, entre outros prêmios, sobre uma menininha iraniana que quer comprar um peixinho. Cinema grande, de primeira.



Juliette Binoche a vi pela primeira vez em A Insustentável Beleza do Ser (1988), mas ela coadjuvava Daniel Day Lewis, nesta filmagem da obra-prima do escritor tcheco Milan Kundera. Depois veio a série de Kieslowski (marido de Binoche) sobre os temas da revolução francesa, o tipo de série que me faz duvidar de quem realmente gosta de cinema e de quem é apenas afetado. Com exceção das locações em Praga tudo me pareceu pretexto para promover a esposa (esta coisa de musa de diretor, compositor, etc., eu nunca engoli).



Bem, muito tempo depois, um diretor que corre o risco de ser chato e uma atriz intelectualizada que corre o risco de me levar a crer que fatura mesmo é em cima dos big boobs estão juntos neste Cópia Fiel. A protagonista é uma mulher de meia-idade, mãe de um típico adolescente de classe média com pais de formação universitária (ele faz o que quer com a mãe, que a todo momento expõe a própria impotência), se joga para um escritor inglês que vai até uma cidade italiana onde a francesa possui uma loja de artesanato e obras de arte. Usando como pretexto discutir o livro do britânico, e dá-lhe big boobs para cima do cara (há uma cena em que exibe o sutiã retirado em uma igreja) o que Binoche quer mesmo é empurrar para a pobre vítima todas as suas frustrações de seu casamento anterior, e, quem sabe, provar um pouco de fish and cheaps. O inglês, porque não tinha nada mesmo para fazer até o horário do trem, topa passear com a dona pela bonita Toscana. E, à moda de Persona, de Bergman, o cara embarca na encenação da protagonista que passa a tratá-lo como se fosse o verdadeiro ex-marido.



Há um interessante diálogo, o melhor do filme, entre uma septuagenária italiana, pré-feminista e Binoche. A nona fazendo uma fala tipo: "filha, os homens não prestam, só têm atenção para o trabalho, mas não fique sem eles", e a cópia fiel lá: "Nona, eu sou francesa e pós-feminista, eu gosto de complicar e quero um homem com a maturidade emocional da mulher"

Mademoiselles et madames, vocês podem achar este filme muito romântico e bonito. Mas se estiver à perigo, rs, como a personagem de Binoche, este papo de "sou-uma-mulher-abandonada-e-com-filho" não vai fazer chover na sua horta. Ah, não? Veja o fim e conclua.

P.S. Ah, sim, Juliette Binoche deu um show, o melhor trabalho dela, creio eu.

P.S. II. Um casalzinho de seus vinte e cinco anos pôs-se a conversar em alto e bom som durante os primeiros vinte minutos do filme. Como ninguém próximo reclamava eu lhes disse: "Pessoal, vocês estão prejudicando o meu filme".

Funcionou.

domingo, 27 de março de 2011

Dívidas literárias (1)

O meu recente ingresso em um mestrado em Literatura tem feito com que eu reflita sobre a enormidade da criação literária humana a qual ainda não li (e certamente lerei apenas uma ínfima parte dela). Não é uma preocupação que perturba o meu sono tranquilo dos justos, mas é mais um pequeno lamento sobre prazeres ainda não desfrutados. E, ao contrário de muita gente, não gosto de dizer que não o fiz por falta de tempo (o tenho livre o suficiente, embora não em abundância) e/ou dinheiro (comprar mais livros não me vai fazer passar por graves dificuldades). Então resolvi criar mais esta nova seção. Assim, além de falar do que já li, como já o faço em outras seções, vou também indicar livros que contam com a minha simpatia. Mas não prometo lê-los agora, já tenho bastante "dever de casa".



Teogonia/Os trabalhos e os dias
(Hesíodo)

O conteúdo destas obras é de meu conhecimento desde que na adolescência li emprestado toda uma enciclopédia da mitologia grega, creio que publicada em fascículos pela Abril, ricamente ilustrada. Ao contrário do que seria normal de se supor, nem a graduação de História e nem o mestrado em História Antiga ampliaram os meus conhecimentos sobre a teogonia grega, porque estes temas não eram de predileção de meus professores, muitíssimo mais dedicados em saber por que e como mudam as sociedades humanas no tempo, e menos propensos a elaborar aulas e cursos sobre cultura clássica, o que é uma pena.

Ou não. Se você tem curiosidade pela mitologia, ou é uma pessoa interessada em religiões, penso que posso lhe assegurar que em matéria de mitos os gregos são insuperáveis. Cristianismo, judaísmo, budismo, celtas, nórdicos, indígenas das quantas, nada me seduziu mais do que a saga que começa com o Caos, Eros, Urano e Gaia. Teogonia trata da origem dos deuses. Os trabalhos e os dias trata da origem dos homens, conforme os atributos de ouro, ferro e prata concedidos por Zeus. Como ainda não os li na íntegra não tenho mais nada a dizer. Ah, sim, é um poema, e a real existência de Hesíodo é mais verossímel do que a de Homero, bem mais próximo da ficção.


quarta-feira, 23 de março de 2011

O Panótico responde ao questionário de Proust.


Qual é, para si, o cúmulo da miséria moral?

Pagar publicidade para ganhar premiações.

Onde gostaria de viver?

Em Santos Dumont, se não fosse tão pequeno. No Rio de Janeiro, se não fosse tão violento. Em São Paulo, se não fosse tão estressante. Em Londres, se não fosse tão caro. Em Paris, se não fosse tão francês.

O seu ideal de felicidade terrestre?

Não ser patrão e nem ser empregado, mas com dinheiro suficiente para levar uma vida plena.

Que culpas a seu ver requerem mais indulgência?

A gula e o sono.

A sua heroína preferida na ficção?

Chihiro.

Os seus pintores favoritos?

Turner e Dali.

O seu músico favorito?

Tony Banks.

As qualidades que prefere na mulher?

As traseiras.

A sua ocupação preferida?

Ouvir música.

Quem gostaria de ter sido?

Ainda bem que eu não sou milhões de pessoas.

Os principais atributos de seu caráter?

A curiosidade e a insatisfação.

Que mais deseja aos seus amigos?

Que eles continuem meus amigos.

O seu principal defeito?

A intolerância com a ataraxia alheia.

O seu sonho de felicidade?

Não se preocupar mais com o feijão, apenas com o sonho.

Qual é a maior das desgraças?

A doença incurável.

Que profissão gostaria de exercer?

Promotor de Justiça.

Que flor prefere?

Sei lá.

Os seus autores preferidos?

Norberto Bobbio, Umberto Eco, Eduardo Gianetti da Fonseca, Patrick Susskind, Juan Pablo Gutierrez, Roberto Bolãno, Jostein Gaarder, Cornell Woolrich.

Os seus poetas preferidos?

Khayyám, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira.

O seu herói preferido?

Aquele que todo dia acorda e vai viver a minha vida.

Os seus heróis da vida real?

Os que não aparecem na tv e nem ganham prêmios.

O que mais detesta no homem?

A ganância.

Caracteres históricos que mais abomina?

Totalitarismo e fanatismo

A reforma política que mais ambicionaria no mundo?

A consolidação definitiva do Estado democrático de direito.

O dom da natureza que mais gostaria de possuir?

A invisibilidade.

Como desejaria morrer?

Sem dor.

Estado presente do seu espírito?

Ansiedade e impaciência.

A sua divisa?

Quem? Eu me despreocupar?

(Achei este questionário meio bobo, mas deu muito trabalho para responder, agora fique como está).

O Panótico lê aqui e agora (12)


Poesia Completa e Prosa I
(Murilo Mendes, 1993)

Certa vez perguntaram a Jimmy Page (guitarrista do Led Zeppelin) por que havia decidido tocar guitarra: porque não é chato como dever de casa. Dever de casa, taí. Cheguei ao ensino superior sem ter ouvido falar do homem (o escritor, imagina se eu não sabia quem era o guitarrista). Havia na Letras uma professora que estava sempre relacionada à divulgação de sua obra. Para mim isto tudo era misto de bairrismo e busca de algo com que se destacar no meio acadêmico (não comentava isto com ninguém, para quê?). Só ouvia falar que o escritor era juizforano. Eu pensava: desde quando a procedência revela a importância do trabalho de alguém?

É comum as pessoas adquirirem cultura por círculos concêntricos, algo do tipo: primeiro eu conheço o povo da terra e depois vou atrás dos estrangeiros, algo similar a: primeiramente eu conheço o Brasil e depois o mundo. Neeeh, eu sempre quis primeiro o mundo e depois o habitat da minhoca. Depois fui sabendo que Murilo Mendes, apesar de juizforano, gostava mesmo era de um rio de janeiro, e depois, mesmo sendo brasileiro, foi morar mesmo - e falecer - em Roma. A declaração de sua viúva de que o poeta era carioca de coração só fez o meu rir, mais uma vez, do bairrismo paraibunense.

Mas o homem era credenciado: a gente lê um cartaz escolar aqui, vê uma matéria de tv ali, uma publicidade acolá, e fica clara a envergadura do mérito que é objeto da admiração alheia.

É Jimmy, dever de casa pode ser chato. Mas eu tenho que fazer o meu.

O Panótico lê aqui e agora (11)


A democracia na América
(Alexis de Tocqueville, 1835)

O estudante de graduação de ciências humanas usualmente angustia-se com a vastidão do que ele deverá ler para adquirir uma boa formação. Aos dezoito anos eu ficava meio desanimado com esta vultosa tarefa, e havia dois agravantes: a grana curta e o fato de que, em plenos anos oitenta, entre comprar um disco de rock ou um livro, eu quase sempre escolhia o primeiro. Mas há um terceiro agravante: confiar em seus professores. Fui ouvir sobre Alexis de Tocqueville em uma disciplina intitulada História das Ideias Políticas III, lá nos idos do Rock in Rio I (1985). O professor, um notório intelectual de proeminente família de políticos e intelectuais, analisou o pensador francês: um liberal-conservador, admirador dos EUA, mas que distinguia-se dos demais liberais por perceber que uma revolta política se instaura com mais frequência em um regime semiaberto do que em um regime fechado. Dito isto, a referência condescendente a um intelectual pré-marxista só poderia ter a seguinte razão se de ser: o filósofo do materialismo histórico com certeza copiou algo dele.

Envelhecer tem um mérito intelectual: você passa a dar um valor danado a quem possui ideias simplesmente porque a maioria das pessoas é acomodada demais para se arriscar a tê-las. Um a um, os grandes filósofos explicados pela abordagem marxista convencional foram se agigantando diante de mim: os gregos, os romanos, os árabes medievais, Spinoza, os racionalistas, Thomas Hobbes (um verdadeiro Leviatã), os iluministas, os "liberais-conservadores", Adam Smith, e o próprio Marx, por que não? Tocqueville lhes faz companhia.

Com origem na baixa nobreza francesa Alexis de Tocqueville (1805-1859) foi o equivalente ao promotor de justiça da atualidade. Indignado com uma punição a um amigo, também do Ministério Público francês, e antipático à monarquia de Luís Filipe de Orléans (1830-48), largou o seu ofício e empreendeu uma viagem aos Estados Unidos com a intenção de estudar o sistema representativo estadunidense o qual acreditava que poderia servir de modelo às monarquias liberais europeias. Convicto da inevitabilidade da democracia e do igualitarismo político, esta obra é uma análise vanguardista sobre os mecanismos de participação política nas sociedades modernas. Até o presente momento, não vi nada de conservador em seu pensamento, não é uma obra de alerta para os perigos da democracia, e nem um manual sobre como evitar a ascensão política do povo. As instituições políticas modificam-se em certa consonância com os conflitos sociais, não caem do céu e nem são meras consequências dos combates de interesses. Para qualquer pessoa que queira entender como uma democracia pode funcionar, se estabelecer, enfrentar dilemas, esta obra é um clássico.


O Panótico lê aqui e agora (10)


Toda vez que eu fico um pouco perplexo com alguma coisa eu resolvo buscar nas vidas alheias uma espécie de praia, ou pousada. É como se eu imaginasse que outras pessoas, que não eu, fossem mais capazes de levar a vida com maior sabedoria. Como eu não conheço tanta gente assim - na verdade, ao longo da semana, eu vejo indivíduos até demais para o meu gosto, algo em torno de duzentos, mas não é disto que estou a falar - eu busco socorro nos livros, principalmente naqueles que revelam muito sobre os seus autores. De onde vem a minha perplexidade? Passei por um processo de seleção de mestrado meio...esquisito, e, paralelamente a isto, esta foi uma semana em que os espaços blogueiros não estiveram muito a favor do confronto, na verdade é mais um contraste do que confronto, de ideias. Estou começando a ficar meio pessimista com este instrumento de comunicação. Mas, da tristeza se pode buscar algum consolo, e antes que o (a) leitor (a) se aborreça com este pensamento digno das piores novelas aí vão as minhas leituras atuais:



Um homem sem profissão
(Oswald de Andrade, 1953)

Adquiri este livro por uma providencial sugestão do mestre Felipe Fritiz, doutorando em Literatura (http://www.felipefritiz.blogspot.com/). Não sabia que Oswald (pronuncia-se Oswáld, segundo Antonio Candido, e não Ôswald) de Andrade havia escrito uma autobiografia. Eu adoro biografias, com ou sem auto. Há alguns anos atrás li Serafim Pontegrande, um exemplar enviado pelo MEC, um dentre muitas excelentes obras literárias que ficam empoeirando as estantes das escolas públicas, à espera de um leitor. Li tudo em uma noite que estava à espera de alunos. Achei sensacional.

De minha parte, a literatura brasileira me cativou em tenra idade. Já falei sobre isto aqui, há muito tempo. Durante a década de setenta, particularmente no governo Geisel, a esquerda militante no magistério aproveitou a riqueza das letras nacionais, particularmente o Modernismo, para tentar empurrar uma parte da classe média para o voto oposicionista, por meio da educação (bom, eu não sou ingênuo de achar que a esquerda realmente espera ou deseja que o jacques le bonhomme torne-se mais inteligente e culto do que é, governar sobre a incipiência é útil para qualquer tipo de facção política). O governo fingia que não pescava o que se passava no ensino, e deixou rolar à vontade o nacionalismo, o regionalismo, o inconformismo, etc. e tal dos autores brazucas. Daí que eu saí do fundamental já conhecendo de nome e de prosa e verso os principais autores da Brasilândia. Sorte a minha, porque o período em que cursei História não me incentivou a ler nada do que me indicavam. Os autores prestigiados pelo senso comum acadêmico me provocavam tal antipatia que, por exemplo, não li nada de Garcia Márquez e de Murilo Mendes. O reconhecimento maciço alheio, agregado a velhos discursos e chavões, me empurrava para ler autores de que ninguém gostava ou não sabia de sua existência. Com isto, perdi eu.

O que se dizia, ou qual era a imagem de Oswald de Andrade? O lugar-comum esquerdolóide era o seguinte: o homem era um representante da pequena burguesia, mas um proletário por vocação e ideologia, um garoto terrível que veio sacudir a pasmaceira dos barões do café, que no dizer de Claude Lévi-Strauss (1929): "fazem de tudo para parecerem europeus, mas não sabem como são tipicos".

E com que deparamos com esta autobiografia? Oswald de Andrade falando de seus caros quadros dos grandes mestres contemporâneos presentes em sua sala, do seu avô desembargador nomeado por Dom Pedro II, da origem feudal de sua família paterna que abafou uma revolta de escravos, e inúmeras descrições de uma família abastada. Neste país eu sei o seguinte: se você caiu no gosto de quem manda não tem pecado que não possa ser perdoado.

domingo, 20 de março de 2011

Dura veritas, sed veritas



"A grande maioria dos poemas é medíocre, quase todos os romances são bons para serem esquecidos"

(Antoine Compagnon, professor de Literatura da Universidade de Columbia (EUA) e do Collège de France, em O Demônio da Teoria, UFMG, 2008, p.223)

sábado, 19 de março de 2011

O Panótico vê aqui e agora (88)

A empregada
(2010)



Há um livro e filme homônimo (Hanyo), sul-coreano, preto-e-branco, no qual um professor de piano moralista é seduzido pela jovem empregada doméstica e sua vida familiar vai então para o beleléu. Este aqui é um pouco diferente. Uma jovem empregada é contratada pela amarga governanta de uma família rica e levada de Seul para o palacete do milionário. Lá ela passa a gostar da filha do casal (uns seis anos) e cuida da jovem esposa grávida de gêmeos. O ricaço ao chegar no palacete gosta de tocar (bem) piano, mas ganha muito dinheiro obviamente não é como professor.



O milionário parte para cima da empregada assim que tem oportunidade, mas o filme deixa claro que não houve o típico assédio sexual, é mais um deslumbramento da menina pobre pela sedução do dinheiro e poder personificado pelo patrão. A jovem engravida e o restante é o cenário familiar típico de um romance do século XIX. Um bom drama, boa fotografia, boa estrutura psicológica, as espectadoras vão gostar.



sexta-feira, 18 de março de 2011

Colírio


As mulheres que não tem nem bund e nem chen que me perdoem. Esta "gordinha" ganha de qualquer uma (menos da minha namorada que é a mulher mais linda do mundo). Hoje, documentário sobre Marylin Monroe, às 21 horas, no GNT. Vou namorar, não vou assistir.

Ás vezes, os interesses das grandes potências coincidem com o da humanidade

terça-feira, 15 de março de 2011

O Panótico vê aqui e agora (87)




Poesia
(2010)

Hoje à tarde voltei à frequentar as terças promocionais do Alameda. Bastou majorarem o valor do ingresso de dois para quatro reais para evaporar boa parte do público. Não me queixo. Não me queixo, mesmo. Sessão das dezoito horas, com uma dúzia de espectadores - a maioria de terceira idade - silêncio total para poder ver este filme coreano. Mesmo sem ter lido a resenha não é difícil imaginar, ainda assim, de que se trata de um drama voltado para sensibilizar as pessoas.



Não vou falar nada sobre diretor e atores, não os conheço e não estou interessado. Em uma cidade média da Coréia do Sul uma adolescente comete suicídio pulando de uma ponte em um bonito rio.

A protagonista é uma senhora de setenta e cinco anos em estágio inicial de Alzheimer. Ganhando a vida simples como auxiliar doméstica de idoso, a pobre coitada, - simpática e com traços que revelam ter sido uma mulher graciosa na juventude -, cuida do neto adolescente que apresenta uma permanente expressão de autopiedade e insolência, e de cuja mãe não se tem notícias. Com o neto indolente envolvido em problemas, a senhora decide entrar para um curso de poesias em um centro comunitário. Mas a esforçada trabalhadora não consegue fazer um único verso.



É o primeiro filme coreano que assisto que não trata de gangsteres, e mais um de milhares de filmes que abordam pessoas comuns e a miserabilidade de seu cotidiano opressor. O interessante é o modo oriental de lidar com isto, com aquelas expressões características de reconhecimento da própria culpa, timidez, autoflagelo.

O filme é um tanto lento, não havia necessidade de cento e quarenta minutos. Fora isto, é como a maioria dos filmes que são apenas bons.


segunda-feira, 14 de março de 2011

New and notable (12)


The king of limbs
(Radiohead/2011)


Não sou mais fã do Radiohead, e depois de OK Computer só prestei atenção na banda porque muita gente boa tem o grupo em alto conceito. De qualquer maneira eu ouço música no varejo, bem faixa-a-faixa, e a minha opinião se forma do particular para o geral. Desta forma, nada me impede de gostar muito de uma coisa ou outra. Dito isto os primeiros minutos podem ser um fator de estímulo, ou não, dado que a minha disciplina me impõe ouvir todo o disco antes de emitir uma opinião mais sintética. O oitavo álbum do grupo vem com uma capa bem feinha, a meu ver, e me parece um recado para os fãs de que o grupo vai manter a linha que lhe caracteriza: um gosto acentuado por estados tristonhos ou algo próximo, está me faltando a palavra adequada, mas um sentimento que não é bem de revolta, nem de depressão, mas uma certa prostração latente ou inconformismo de quem não vai abraçar uma causa coletiva e nem mergulhar no escapismo. Esta postura pode dar bons resultados estéticos, mas não é o som que vai me cativar, que está mais para o humanismo lírico, para o romantismo épico, ou para a intensidade das guinadas históricas.

As primeiras faixas dão todo o destaque ao cantor Thom Yorke, mas ainda assim é um som de banda, oferece uns ritmos bem instigantes e a eletrônica, bem discreta, é mais estimulante que o vocal característico de Yorke. A minha preferida é Lotus Flower, que eu imagino que vai ser, ou já é, a faixa de trabalho. Ao final, este pode ser o primeiro cd significativo do ano. Mas quem esperava mais um cd surpreendente pode se decepcionar. É mais um lançamento do Radiohead, não muito mais do que isto.

domingo, 13 de março de 2011

Madrigal tão engraçadinho, mas fake


Catherine Zeta Jones, você já foi a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive
o ratinho branco que o meu irmão ganhou
 quando eu tinha vinte anos.


Videoclipes (62)

Moonlight Shadow
(The shadows/1960)

Eu não sabia que esta música de Mike Oldfield (1983) era uma versão. Gostei bem da original.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Que saudade...







Quarta-feira próxima presto exame de línguas para o concurso de mestrado em Letras no CES/JF. Optei por francês e fiquei matutando se eu ainda possuía ou não um velho dicionário do MEC, da época do ATARI, adquirido com bom preço, o que poderia ser útil já que é permitida a sua consulta. Os meus livros estão espalhados por vários locais da minha residência, de uma forma desorganizada. Simultaneamente lembrei-me de um dicionário de verbos, ambos adquiridos quando comecei a fazer a língua francesa, no ICHL da UFJF, em 1983. E não é que encontrei os dois, além de um pequeno dicionário de espanhol, atrás das minhas pilhas de cds, guardados por um par de lacraias (ô bichinho nogento). Que saudade me deu desta época em que era obediente a um conselho aristotélico e apenas estudava, sem trabalhar.

domingo, 6 de março de 2011

Homenagem antes que seja póstuma


O baterista do Genesis e cantor Phil Collins anunciou hoje sua retirada do cenário musical. Collins, 60 anos, perdeu quase toda a audição do ouvido esquerdo e os movimentos de uma das mãos. Para mim, além de significar que a geração de meus músicos prediletos avança rumo à terceira idade, tem também o vaticínio de que eu nunca mais vou ver o Genesis em turnê. Fã ardoroso da galera de Charterhouse há mais de trinta anos, não tenho mágoa de Phil Collins, e não lhe imputo toda a culpa pela guinada pop que a banda tomou a partir dos anos oitenta. Fica aqui minha microscópica homenagem assinando  abaixo das seguintes palavras:

"A despeito do que se possa pensar de suas canções, Phil Collins é um músico extraordinariamente talentoso"
(Peter Gabriel, em 2000)

sábado, 5 de março de 2011

O Panótico lê aqui e agora (9)



O demônio da teoria. Literatura e senso comum
(Antoine Compagnon: UFMG, 2010)


Carnaval para mim é um período crucial. Dou um descanso de uma semana do baque do retorno às aulas, e posso aproveitar para colocar as leituras em dia. Na outra segunda começam os exames de seleção do mestrado em Letras (CES), e apesar de todo o mundo alardear sobre a tranquilidade dos mesmos eu não gosto de entrar desprevenido para nada. Então, o momento é de estudar. Este Demônio da Teoria é um livro angelical: uma formação teórica básica pode garantir uma boa avaliação escrita e uma boa entrevista. Publicado pela UFMG, tem sido uma constante na bibliografia básica de diversos mestrados em literatura. Então, enquanto muitos se divertem por aí, eu fico por aqui curtindo compenetrado umas leituras, com esta chuvinha de outono precoce. 

sexta-feira, 4 de março de 2011

Além da Deborah Secco, também não bebem:


Deborah Secco nunca bebeu e Falcão não bebe maconha


My best loved 1971 rock albums (3)



Meddle
(Pink Floyd)

Quando minha família mudou para Juiz de Fora, no final de 1984, havia três entidades musicais que a juventude local não permitia colocar em dúvida - sob pena de incorrer no crime de lesa-majestade, cujas penas eram severas (ouvir Paulinho Pedra Azul ou Bilinho, por exemplo): Led Zeppelin, o Clube da Esquina e Pink Floyd.



Com o passar dos anos, no entanto, estas contextualizações vão perdendo força, e fica mais fácil concentrar-se preponderantemente na música. Echoes é a faixa que eu mais gosto de tudo que eles fizeram, por força do vídeo ao vivo em Pompeia. O restante do álbum é composto por canções não tão boas.





Fotos (4)


Rommert Boonstra (1942 -?)








O Panótico vê aqui e agora (86)




O discurso do rei
(2010)

Não vou aqui repetir o que todo mundo já sabe: o filme ganhou vários Oscars (êêêêêêêê), Colin Firth vai se tornar lorde (êêêêêêêê), o filme é uma propaganda de uma instituição cara e inútil (êêê...what?!).



Eu pergunto: por que alguém precisaria de monarcas? Não obstante as qualidades dramáticas de Firth e de Helena Bonham Carter [em uma rara personagem conservadora, como a rainha-mãe Elizabeth (1900-2002)], O discurso do rei faz um esforço medonho em compatibilizar duas crenças tão opostas a ponto de cabeças rolarem: o republicanismo, que se fundamenta na convicção de que as distinções de berço são irrelevantes, e de que a relação entre povo e Estado se baseia na cidadania; e a monarquia, por outro lado, que se fundamenta na convicção de que algumas pessoas, sem mérito ou esforço pessoal, possuem um traço distintivo: a nobilitas, o que demanda uma relação entre povo e soberano baseada na fidelidade.



Isto explica, por um lado, que o príncipe Albert (futuro rei George VI) é exposto na sua condição humana, particularmente na cena em que fala repetidos palavrões, e o seu esforço pessoal em vencer a própria gagueira lhe dá o mérito de ser um rei respeitado durante a guerra. E aí, eu pergunto: que diferença isto faz? O Reino Unido teria perdido a guerra por ter um rei gago? A Alemanha, por acaso, venceu o mesmo conflito porque tinha um líder eloquente? O resultado final do filme é óbvio: uma tremenda babação de ovo em prol de privilegiados. O Reino Unido merece uma república.




quinta-feira, 3 de março de 2011

Às vezes é preciso dizer não



Hoje à tarde houve uma paralisação do magistério da rede municipal. Marcada em cima da hora, não tive como prever e deixar a tarde desocupada para atender clientes. Vi-me de repente com algo valoroso, um "luxo imaterial": uma tarde livre, inteirinha para mim em uma plena quinta-feira útil. Aproveitei para ir ao cinema ver "O discurso do rei" (outro post), na primeira sessão às quatorze horas, com pouca ou nenhuma fila. Assim como o Sheldon (The big band theory) eu tenho um lugar específico de que gosto para cada sala do Alameda, rs. Cheguei primeirão, quinze minutos antes. Uma simpática septuagenária veio logo após. Muito agitada, andando com frequência, me fez a seguinte pergunta: "Você viu Além da vida?" "É o filme com o Matt Damon?" "Isto eu não sei" "Se for, eu devo ver estes dias (e é verdade, tô com ele aqui, além de estrelado por Matt Damon é também dirigido por Clint Eastwood)" "Este filme é maravilhoso: são três histórias bláblábláblábláblá, mas na primeira, no final acontece o seguinte: blábláblábláblá, na segunda são três pessoas e bláblábláblábláblá, tem um atropelamento e bláblábláblábláblá, a terceira mistura com a primeira e blábláblábláblábláblá mas você pensa que aconteceu assim, mas não, blábláblábláblá.....


Eu já tive um sério problema de não saber dizer não às pessoas, a ponto de me deixar bastante aborrecido. Depois de muito esforço, aprendi a fazê-lo, mas eu preciso refletir algum tempo e estabelecer critérios para decidir a melhor hora de agir. Enquanto a gentil senhora ia revelando diversas reviravoltas do filme, eu pensava que compreender a condição dela, provavelmente uma pessoa solitária, seria algo exigível de mim, mais jovem e possivelmente de melhor nível educacional, que, além de tudo, poderia ver outras centenas de filmes e não precisaria bancar o desmancha-prazer, pois ela parecia realmente que estava feliz de poder contá-lo a qualquer pessoa que tivesse o coração aberto a ouvi-la. Ora, é apenas mais um filme.

.....

Não, não é não.

Perguntei-lhe: "A senhora não pretende me contar todo o enredo, não é?! Eu prefiro ver os filmes sabendo pouco sobre eles."



Não sinto orgulho do que fiz. Mas também não sinto vergonha. Fiquei com pena dela, no entanto.

Mas às vezes é preciso dizer não.

Falas (5)

"Eu nunca bebi nada" (hoje, na tv paga)

Férias-prêmio



Em Anna dos Seis aos Dezoito, o cineasta e ator russo Nikita Mikhalkov afirmou que o dia em que se sentiu mais frágil na vida foi o da morte de Stálin, em 1953. Parecia-lhe que o mundo iria acabar. Milhões choraram a morte do carnificida Jóssef Djugatchvili.

Eu fico pasmo como o ser humano gosta da escravidão, embora isto já tenha sido dito por Etienne de La Boétie, em Discurso da Servidão Voluntária (1571), uma obra indispensável, que, por mera sorte, li há mais de vinte anos. No meu dia-a-dia conheço dezenas destes seres que temem a liberdade mais do que o Estado total.

Estou entrando em férias-prêmio de um estabelecimento de ensino no qual trabalho há dezenove longos anos. É provável que eu lá não retorne após estas férias. Não quero chorar, não me sinto frágil e desamparado, e, em outro contexto e por motivos muito diversos, faço meu o sentimento expresso nesta canção a seguir:


terça-feira, 1 de março de 2011

Ó Capitão! meu Capitão!



Ó Capitão! meu Capitão! Finda é a temível jornada.
Vencida cada tormenta, a busca foi laureada.
O porto é ali, os sinos ouvi, exulta o povo inteiro,
Com o olhar na quilha estanque do vaso ousado e austero.
       Mas ó coração, coração!
             O sangue mancha o navio.
                   No convés, meu Capitão
                         Vai caído, morto e frio.


Ó Capitão! meu Capitão! Ergue-te ao dobre dos sinos;
Por ti se agita o pendão e os clarins tocam os seus hinos.
Por ti buquês, guirlandas... Multidões as praias lotam,
Teu nome é o que elas clamam; para ti os olhos voltam.
      Capitão, querido pai,
            Dormes no braço macio...
                  É meu sonho que ao convés
                        Vai caído, morto e frio.


Ah! meu Capitão não fala, foi do lábio o sopro expulso,
Meu calor meu pai não sente, já não tem vontade ou pulso.
Da nau ancorada e ilesa, a jornada é concluída.
E lá vem ela em triunfo da viagem antes temida.
     Povo, exulta! Sino, dobra!
          Mas meu passo é tão sombrio...
               No convés meu Capitão
                   Vai caído, morto e frio.




Walt Whitman (1865).



Este poema é citado pela personagem principal de "Sociedade dos Poetas Mortos" (1989), com Robin Williams.



O professor que é o tema da película foi demitido, com quase trinta anos de casa, sem aviso prévio ou maiores explicações, alguns anos após a realização do filme.