Juiz de Fora

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Livros (37)


Há uns vinte e cinco anos atrás um conhecido meu - funcionário do Banco do Brasil - aposentou-se pela lei previdenciária da época, com trinta anos de serviço, aos quarenta e oito anos de idade. Perguntei-lhe o que pretendia fazer agora que teria um bom tempo livre: "Ler todos os clássicos da literatura universal". Este diálogo me remete às coleções homônimas, com obras que não pagam mais direitos autorais por terem sido publicadas há mais de setenta anos, o que torna o custo de sua aquisição especialmente atraente.Tenho duas delas, parcialmente, e nada do que li foi perda de tempo. Mas mantive a curiosidade de qual seria um guia de esquadrinhamento idôneo para que você possa ler o que há de melhor na criação literária já que o tempo de uma vida é curto demais para se ler todos os clássicos da literatura universal. Uma sugestão partiu de um post que li recentemente (http://mataharie007.blogspot.com/2011/01/passo-de-caranguejo.html): procurar pelo menos uma obra de cada escritor laureado com um Nobel. É uma premiação muito criticada, e os brasileiros protestam pela ausência de alguém de nossas letras: Jorge Amado ou Carlos Drummond de Andrade são os primeiros nomes que vêm à minha mente. Mas ainda assim é um caminho interessante.

Vou indicar aqui os escritores premiados pela academia sueca e suas obras a que li até o presente momento(em português) disponíveis no mercado:




(2006) Orhan Pamuk: Neve, Istambul, O meu nome é vermelho, O castelo branco.






(1998) José Saramago: O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira, História do cerco de Lisboa, A caverna, As intermitências da morte.






(1982) Gabriel García Márquez: Cem anos de solidão.






(1981) Elias Canetti: Massa e poder





(1964) Jean Paul Sartre: A idade da razão







(1957) Albert Camus: O estrangeiro






(1947) André Gide: Os frutos da terra.






(1946) Hermann Hesse: O lobo da estepe.






(1929) Thomas Mann: Doutor Fausto



Adotando-se esta trilha eu tenho muuuuito o que ler. Mas não tem problema não, eu ainda não cheguei aos quarenta e oito e não vou me aposentar nos próximos anos.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Livros (I)*


O pacto autobiográfico
(Philippe Lejeune, 2008)




A obra O pacto autobiográfico. De Rousseau à Internet é uma coletânea de textos organizada e traduzida pela professora juizforana Jovita M. G. Noronha e publicada pela editora da UFMG, há dois anos atrás. Reúne textos de Philippe Lejeune, publicados nas últimas quatro décadas, tendo por tema a autobiografia, mas na acepção criada pelo autor, o pacto autobiográfico.

O interesse de Leujeune pelo tema iniciou-se em 1971, quando publicou L'autobiographie en France. O pacto autobiográfico inicia-se com texto homônimo, escrito em 1996, no qual o autor buscou, e confessa-o desde já, estabelecer definições e conceitos com excessivo rigor acadêmico, o que torna a leitura das primeiras páginas árdua, enfadonha, e, saltando aos olhos, um tanto inconvicente. Lutando contra a desconfiança acadêmica da época, que considerava a autobiografia criação literária menor, Lejeune reúne todas as forças para apresentar o tema sobre uma perspectiva séria.



Define autobiografia, econômica e satisfatoriamente,  pouco modificando o que constava do dicionário Larousse (segundo afirmou mais tarde, cf.p.78), como:

narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade. (p.14).

A partir daí, no entanto, disseca a definição, não satisfeito com o átomo que encontrou e preferindo manusear as suas partículas integrantes, para concluir que a autobiografia, enquanto tal, exige uma relação de identidade entre o autor, o narrador e o personagem (p.15). Explorando esta relação, Lejeune coloca um problema pertinente:

Uma autor não é uma pessoa. É uma pessoa que escreve e publica. Inscrito, a um só tempo, no texto e no extratexto, ele é a linha de contato entre eles. O autor se define como sendo simultaneamente uma pessoa real socialmente responsável e o produtor de um discurso. Para o leitor, que não conhece a pessoa real, embora creia em sua existência, o autor se define como a pessoa capaz de produzir aquele discurso e vai imaginá-lo, então, a partir do que ele produz.

Isto posto, o pacto autobiográfico, ao contrário do que uma primeira impressão faz sugerir, não diz respeito a um acordo, contrato, avença, compromisso, ou o que seja, entre quem escreve e quem lê. O pacto autobiográfico limita-se à autenticidade da assinatura, e nâo à semelhança entre o que é narrado e o que é vivido:

O primeiro ensaio prossegue, no entanto, sem ter oferecido maiores conclusões a partir do seu melhor ponto: o que há de verídico em uma autobiografia, e qual é a sua credibilidade, seja como literatura, seja como fonte histórica. Lejeune parece ter percebido que mais colocou questões do que se propôs resolvê-las. O que por si só não chega a ser de se lamentar, todavia:

No final das contas, esse estudo me parece ser antes um documento a ser estudado (tentativa de um leitor do século 20 para racionalizar e explicitar seus critérios de leitura) do que um texto 'científico': documento a ser adicionado ao arquivo de uma ciência histórica dos modos de comunicação literária. (p.46)

O terceiro ensaio, O pacto autobiográfico, 25 anos depois, escrito em 2001, já nos permite compreender como a eleboração de um blog pode ser interpretado sob uma perspectiva de pacto autobiográfico:

1) Ora, no pacto autobiográfico, como, aliás, em qualquer contrato de leitura, há uma simples proposta que só envolve o autor: o leitor fica livre para ler ou não e, sobretudo, para ler como quiser. (...) [Mas] você se envolve no processo; alguém pede para ser amado, para ser julgado, e é você quem deverá fazê-lo. (p.73)

Por que escrever um blog? A quem pedimos a aprovação? O principal leitor de um blog é como o principal ouvinte de um professor: ele próprio. Livros precisam vender. Livros precisam de aprovação. A aprovação de uma obra impressa tem a ver com o número de obras editadas. O mercado pode ser um juiz insensível à uma obra literária. O pacto autobiográfico de um blogueiro mantém-se com a sua regularidade.

2) À diferença de outros contratos de leitura, o pacto autobiográfico é contagioso. (p.74)

O blog criou seis bilhões de escritores em potencial.

3) Hoje, sei que transformar sua vida em narrativa é simplesmente viver. Somos homens-narrativas.(idem).

Não sei se foi dado o devido impacto à esta afirmação. Há décadas que os professores de história ensinam aos seus alunos: todo mundo possui uma história. Coisa muito diferente é dizer que todos somos narrativas. A vida do outro percebida como descrição e síntese.

Mais sobre esta obra em outros posts, fico por aqui, por enquanto.





*conforme explicado em Livros (II) http://panoticum.blogspot.com/2010/08/livros-ii.html

domingo, 5 de setembro de 2010

Livros (XXVI)

O ladrão que achava que era Bogart/ O ladrão que pintava como Mondrian/O ladrão que estudava Spinoza
(Lawrence Block, 1998-2002)




Bernard Rhodenbarr, além de livreiro, possui um gosto incomum: invadir os lares alheios. Não necessariamente para furtar algo, embora, vez por outra, ele tire uma casquinha, mas pelo prazer de estar em um local onde não foi convidado.



Manjado pela polícia, tem que bancar o detetive para fugir das barras da lei, ou da cadeia, que é o mais adequado de se dizer.




Ele não busca o seu perdão ou a aplicação de atenuantes: o que eu faço é vil e ilegal.




Livros (XXV)


Trilogia suja de Havana/O rei de Havana/Animal tropical
(Pedro Juan Gutiérrez, 1998-2000)



Nos anos cinquenta o filósofo Raymond Aron publicou O Ópio dos Intelectuais, onde abordava a insistência de boa parte do pensamento crítico em acreditar, ou impostar acreditar, na União Soviética stalinista. E remontava ao próprio Marx, que colecionava estatísticas sobre a péssima situação da classe operária, como prova da crise final do capitalismo, até o momento em que, em meados da década de setenta do século XIX, os dados deixaram de ser favoráveis às suas convicções. Marx parou de exibi-las, mas insistiu na tese revolucionária, mesmo diante de evidências autorizadas em sentido contrário.



As simpatias para com Cuba cegaram, ou impostaram cegar, muita gente boa. Pedro Juan Gutiérrez foi um jornalista do sistema castrista, mas rompeu com ele. Chegou a vender latas usadas de refrigerantes para poder pagar o charuto de cada dia. O que ele narra sobre a vida na ilha pouco ou nada tem a ver com as crenças originais de 1959. Ok, alguém pode dizer que foi apenas uma conjuntura desfavorável de meados dos anos noventa, pelo fim da ajuda soviética ou por culpa dos embargos norteamericanos. Cada um consome o ópio que bem quiser.




sábado, 4 de setembro de 2010

Livros (XXIV)

Aranhas de ouro
(Rex Stout, 1934)



Nero Wolf é um detetive particular, austríaco, residente em Nova York, gourmet, orquidófilo, fica fazendo inveja na gente tomando cerveja enquanto trabalha, misógeno, portador de transtorno abdominal excessivo (gordo), ranzinza, e não permite que pessoas chatas venham azucrinar os seus ouvidos mesmo quando elas estão pagando. Não bastasse todas estas virtudes, sempre soluciona os crimes privados. Leitura indispensável para quem curte romance policial.


Livros (XXIII)

A Demanda do Santo Graal
(Heitor Megale, 1988)



Esta é a melhor versão portuguesa sobre o ciclo arturiano fundamentada na melhor tradição do século XIII. A leitura é agradabilíssima, ainda que tenha sido obrigatória por força do mestrado em medieval, nos finais de 1988.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Livros (XXII)


A noiva estava de preto/Casei-me com um morto
(Cornell Woolrich, 1940, 1948)




Estes foram os dois romances policiais mais interessantes que eu li, e um dos primeiros autores com que tomei contato, após Agatha Christie e John Dunning. Não há como não ficar surpreso diante da trama das estórias e das soluções que vão se desenhando ao longo da narrativa. Ambos foram para as telas.





Livros (XXI)

A ética protestante e o espírito do capitalismo
(Max Weber, 1920)



Todo professor que se preze fica lamentando por não ter sucesso em convencer os seus alunos a lerem, o que quer que seja. Mas houve uma época em que o povo brasileiro deveria ler em excesso, pois volta e meia, quando cursava História, alguém tentava me convencer a não ler determinada obra. Eu já sabia que os autores criticados eram melhores do que o que se dizia a seu respeito e dos seus escritos, mas esta obra aqui foi a principal das vítimas.



Afirmavam que Weber teria tentado explicar o capitalismo pela ética protestante (uma explicação fundamentada na religião, portanto). Mas não é que o homem, logo de cara, afirma que não iria substituir uma explicação monofatoral  (a de Marx, fundamentada na acumulação primitiva de capital, uma explicação econômica, por suposto) por outra? Este livro é tão interessante, tão bem escrito, tão fundamentado, que eu o li num único dia, em fins de 1987, quando me preparava para o concurso de mestrado em Ciência Política, na UFMG.


Com base nisto, proponho, com Bono Vox, os seguintes axiomas:




Todo livro é bom.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Livros (XX)

Cem anos de solidão
(Gabriel García Márquez, 1967)



Em 1984 todo mundo dizia que estava lendo Cem anos de solidão, um sucesso semelhante ao Código da Vinci de anos atrás, e todos repetiam que o final valia o livro. Não li, à época, por força deste modismo e da filiação do autor aos interesses do ditador cubano. Dez anos depois, desvencilhado destas restrições, resolvi encará-lo, obra-mor do realismo fantástico. Leitura de um fôlego, bom tudo o que pode.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Livros (XIX)


1984
(George Orwell, 1949)




Li este livro exatamente em 1984, ano em que também o filme foi lançado, com ótima trilha do Eurythmics. Cursando o terceiro período de história, volta e meia algum colega criticava as premissas da obra, sem o ter sequer folheado. Ou então desqualificavam o autor por suas posições desrespeitosas para com os hindus e birmaneses.


1984 busca ir a fundo num futuro mundo totalitário. É uma leitura ansiosa. O totalitarismo foi um pouco menos onisciente e menos paciente com os seus supostos opositores. Esta obra não me parece um mero sub-produto da guerra fria, no entanto.




terça-feira, 31 de agosto de 2010

Livros (XVIII)

A mulher de trinta anos
(Balzac, 1842)



Em 1994 eu resolvi tentar comprender este ser um tanto complicado: a mulher (Não proteste, mademoiselle, nem vocês se entendem), e assinei, por dois anos, a revista Marie Claire, e li uns dos primeiros trabalhos de Balzac. O livro é bem interessante, dá umas pistas, mas é óbvio que a complexidade do objeto demanda centenas de leituras.


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Livros (XVII)


O mundo de Sofia
(Jostein Gaarder, 1991)




Eu tive o privilégio de fazer três disciplinas de história da filosofia com um professor que era fluente em alemão, latim e grego e possuía uma erudição impressionante para a compreensão da grande maioria dos pensadores. Eu fiquei particularmente assombrado como ele conseguia facilitar o acesso a Kant e Hegel, dois pesos-pesados. Mas a grande maioria dos seus alunos lhe eram um tanto indiferentes e até hostis a sua abordagem.




Enfrentando situação semelhante, o professor de filosofia do ensino médio, o norueguês Jostein Gaarder, resolveu escrever uma obra que pudesse tornar o ensino de sua disciplina mais atraente. No que me diz respeito, ele teve pleno sucesso. O enredo é interessantíssimo, atrai o leitor, e sua explanação sobre mais de cinquenta filósofos é bem didática sem cair nos reducionismos. Até hoje, quando quero relembrar a mola-mestra de algum pensador recorro ao Mundo de Sofia. Este é o tipo de livro que me empolga, que vou lendo até o sono não mais permitir.



Foi levado para o vídeo, mas não o assisti.


Livros (XVI)


Exodus
(Leon Uris, 1958)

Em 1978 entrei voluntariamente para um grupo de jovens católicos, uma experiência interessante. Lá fiz uma amizade que indicou-me esta obra, com mais de setecentas páginas, um desafio atraente para um adolescente de treze anos.

Exodus é pura propaganda sionista, mas sabe ganhar a simpatia do leitor para com a causa judaica, expondo, com base em muita pesquisa, o sofrimento na Europa Oriental e Central, no final do século XIX, e o do Holocausto, por óbvio.

Durante algumas semanas, ao som de Ilusions on a Double Dimple, do Triumvirat, venci o único volume (esta foto de cima é de edição posterior), e durante muitos anos foi a obra mais extensa que li.

Não simpatizo com o Estado israelita de Barak, Sharon e Netaniahu, mas também não vejo com maus olhos o povo de Rabin, Peres, Freud, Marx, Einstein, Peter Singer, Woody Allen, etc., etc., etc....

Livros (XV)

Os crimes ABC
(Agatha Christie, 1936)



Em 1978 mudamos para Santos Dumont e eu passei a estudar em (boa) escola pública. Mas o professor de Português, prudentemente, não obrigava os alunos a lerem obras completas, pois não havia biblioteca decente na escola. Acomodei-me, mas suspeitava de que deveria manter algum hábito de leitura. Uma tia apresentou-me as obras de Agatha Christie, um tremendo sucesso na época, e foi assim que li o meu primeiro romance policial, um gênero subestimado.



O detetive belga Hercule Poirot sempre elucidava os crimes pelo método dedutivo, o que já era clássico desde Sherlock Holmes. Nem todas as dúvidas eram esclarecidas pela autora, mas ao final ficava a curiosidade de continuar lendo as suas obras, mais de oitenta, algumas delas nas telas de cinema.