Juiz de Fora

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Frida (398)


Frida
(2002)



Frida Kahlo (Salma Hayek) (1907-54) foi uma pintora mexicana comunista, bissexual, feminista, fumante, alcoólatra e disputava atenção com o marido infiel, o também comunista Diego Rivera (Alfredo Molina)

Eu tinha tudo para detestar este filme: Frida Kahlo imediatamente me faz evocar a seguinte imagem desde que colegas comunistas me falaram dela na década de oitenta: "Olhem, gente, eu sou feia pra caramba, mas como sou revolucionária vocês têm a obrigação de dizer que sou genial e me desejarem ardentemente, do contrário vocês são uns reacionários" e Diego Rivera: "Olhem, gente, eu pinto horrendos quadros soviéticos, são mais didáticos que filmes banais, mas vocês têm a obrigação de me acharem genial e me desejarem ardentemente,do contrário eu lhes cubro de porrada".

Mas não é que o filme é bem legal? A bela e talentosa Salma Hayek estimula o espectador com a sua atuação e sua fartura exibida sem economia. O contexto político não chantageia o espectador, e ainda tem aquela coisa moralista-evangélica típica do cinema estadunidense, algo do tipo: no fundo, no fundo, ela apenas queria ser amada e ser uma boa esposa e mãe.

As animações a partir dos quadro da pintora, quase sempre auto-retratos, são bem sacadas. Há aquela charopada de música mexicana, mas num limite perdoável.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Birdman (397)


Birdman
(2015)


Riggan Thomson (Michael Keaton) foi ator de block-buster e agora quer ser reconhecido como ator sério, dirigindo e estrelando uma peça literária na Broadway. Sofre apoio e pressão de atores,produtores, crítica, parentes, etc. O seu personagem que lhe deu muito sucesso, Birdman, fica atormentando a sua mente mostrando o que pretende fazer é patético, deveria estrelar mais um filme da antiga série.

Com bons atores em bons papéis (Naomy Watts, Emma Stone e Edward Norton) o foco do filme do mexicano A.G. Iñárritu é a crítica frontal à indústria cinematográfica voltada para os adolescentes. Elétrico e teatralizado (excessivamente) é "radical" a ponto de não ser compreensível para quem precisa vê-lo (as "massas") e muito didático para quem é capaz de ficar desconfiado diante de Hollywood.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Sniper Americano (396)


Sniper americano
(2015)






EUA-Iraque (1984-2013). Chris Kyle é criado no Texas em uma família redneck. O pai é evangélico e diz que não quer criar nem ovelhas e nem lobos, mas cães protetores. Chris cresce num mundo de armas, caça, esportes, cultos, etc e tal. Adulto, sente-se frustrado como peão boiadeiro e decide se inscrever em uma unidade de elite das Forças Armadas. É voluntário na invasão do Iraque e se destaca como o maior atirador de elite da história estadunidense.

Sete meses. Havia sete meses que não ia ao cinema por culpa das distribuidoras de filmes (só passa porcaria). Fiquei tão satisfeito que nem me incomodei com os adolescentes de quase trinta anos que ficavam, ah, você já sabe.

O filme dirigido por Clint Eastwood é aparentemente patrioteiro e justifica a invasão do Iraque com dois argumentos falaciosos: o Iraque foi culpado pelo 11 de setembro, os muçulmanos são fanáticos e lá nós fomos proteger os cidadãos de bem (então são três argumentos falaciosos, na verdade).

Mas Clint Eastwood e o produtor e ator Bradley Cooper não romantizam a guerra em nada, o filme é muito impactante, bastante cru e cala fundo. Os dilemas éticos são reais e não há respostas evidentes. O cidadão pacifista - como eu e você - se identifica com a esposa do soldado (?) Kyle, mostrando o absurdo daquilo tudo. É um senhor filme.

sábado, 13 de setembro de 2014

O blogueiro dobra a esquina.

Fazer meio século de vida impressiona. Por um lado, você fica contente de ter chegado a tanto. Por outro, você sabe que dificilmente vai ter outro meio século de vida. O meu corpo e a minha mente não aceitam este número. Não tenho nenhuma doença crônica, não sinto nenhuma dorzinha,   tenho a curiosidade e ansiedade dos mais jovens, meus pais estão bem-vivos e com saúde, não fiquei rico, mas não me falta dinheiro para comprar o que quero. Na verdade, não quero comprar coisa alguma. O meu único consumo extra é viajar.

Se aos cinquenta anos você não "venceu" na vida não adianta se desesperar. Prefiro uma boa tarde de sono a uma boa tarde de trabalho. Prefiro ler um bom livro ou ver um filmaço do que disputar mercado. Cansei de ver gente que ganha o dobro ou triplo do que eu e que diz: "eu não tenho tempo para ver um filme", "eu não tenho tempo de ir ao cinema", "eu não tenho paciência para ouvir um cd inteiro" "eu não vi a minha filha crescer". E ficam lá, satisfeitos por poder comprar um carro de cem mil reais para se irritar no centro engarrafado.

Por esta altura da vida já li mais de mil livros, mas "nenhum livro me ensinou a viver" (detetive Pepe Carvalho, personagem de Manuel Vázquez Montalbán). Stravinsky, com quase noventa anos, disse que a única sabedoria da velhice é que ela se parece com a infância.

Eu posso dizer, sem sombra de dúvida, que a alegria mais constante da minha vida foi ter tido o privilégio de ouvir música, é difícil descrever o seu significado na minha existência.

Vou publicar aqui a minha preferida para ano da minha caminhada. Ofereço como presente a qualquer um que queira ouvir. Obrigado.

Enaldo Pereira Soares (14/09/1964 - ?)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"As pessoas deveriam viver como pessoas, não como pacientes" (394-395)


Gordo, doente e quase morto
(2010)



Joe Cross é um australiano de Sydney, com quarenta e poucos anos. Após terminar o ensino médio decidiu não fazer faculdade e passou a trabalhar no mercado financeiro. Aos vinte e três anos montou a sua própria empresa e ficou rico. Passou a comer de forma avassaladora carne, refrigerantes e comida processada. Chegou aos cento e trinta quilos e desenvolveu uma doença rara em função da má alimentação. Sentia diversos sintomas da obesidade mórbida, tomava vários remédios com diversos efeitos colaterais e, alguns anos atrás criou coragem e deu um basta. Joe passou a se alimentar exclusivamente de sucos naturais de vegetais e frutas. Aqui ele conta a sua história e de outras pessoas.

Toda vez que assisto um documentário sobre vegetarianismo e comida saudável eu fico com a alma lavada e enxaguada. Os efeitos positivos sobre as pessoas documentadas são notórios. Joe é muito simpático e percorre os EUA perguntando e propondo às pessoas a sua dieta de sucos. Mas apenas sucos? Tão somente. Claro que há orientação médica e ele não está vendendo o elixir da eterna juventude. Achei interessante ele dar oportunidade às pessoas falarem sobre os seus hábitos alimentares. Falta de informação, paladar viciado, e preguiça predominam.

Este caminhoneiro pesava quase duzentos quilos antes da dieta de sucos.





Alimentação é importante
(2008)



Food matters é um documentário que tem alguns eixos: o prejuízo que representa a alimentação cozida comparativamente à alimentos crus, a importância das vitaminas, a indústria farmacêutica e o seu entrelaçamento com a medicina institucionalizada, a importância da alimentação para a prevenção de doenças degenerativas. Da mesma forma que Troque a faca pelo garfo, já resenhada aqui, o vínculo entre os interesses dos fabricantes de remédios, hospitais e em édicos em manter as pessoas permanentemente sem cura é analisado, mas em um nível mais claro e profundo. É um documentário que deveria ser visto por todo ser humano, principalmente quando estão gastando tubos de dinheiro com tratamento ineficaz para doenças como câncer.

Os dois documentários estão disponíveis no Netflix e no Youtube.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Filme palestino que não subestima Israel (393)


Omar
(2013)



Cisjordânia, na década passada. Omar é um jovem e pobre padeiro palestino, apaixonado pela estudante secundarista Nadia, irmã de Tarek, e também desejada por Amjad. Tarek, Omar e Amjad são amigos de infância e integram uma célula dos Mártires de Al-Aqsa, braço militar da Fatah (secularista e socialista, salvo melhor informação). Omar escala o muro de Israel para encontrar com a amada, arriscando-se a levar uns tiros. Impulsivo, após reagir de forma tola diante de zombeteiros soldados israelenses, Omar participa de um covarde homicídio contra um desconhecido soldado israelense desarmado que fazia tarefas rotineiras em um quartel do exército. Capturado, a vida de Omar passa a pertencer aos outros.



Dirigido por Hany Abu-Assad (de Paradise Now), um palestino criado em Israel, este ágil filme sobre política, amor e traições é favorável à causa árabe, mas não demoniza os israelenses e nem santifica os terroristas palestinos. A trama é complexa e cheia de surpresas. Excelente.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

"Havia apenas quatro soldados quando mil foram encaminhados para a câmara de gás" (392)


A Grande Mentira
(2010)



Berlim Oriental, 1965. Três agentes da Mossad israelense querem sequestrar um ex-médico carniceiro do campo de concentração em Birkenau, que trabalha tranquilamente como ginecologista na capital da Alemanha Oriental. A agente (Helen Mirren, trinta anos depois) fica grávida de um colega enquanto se apaixona por outro. A missão os torna heróis em Israel, mas décadas após a verdade pode vir à tona.

Este é um filme de mediano a bom. Acho que prenderá a atenção mais de quem se interessa por triângulos amorosos do que pela trama moral e/ou política. Mas há uma fala audaciosa e instigante que me faz valorizar o que assisti. Refilmagem de filme israelense de 2007.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Um filme escandinavo que não apela para a sordidez subterrânea. (391)


Depois do casamento
(2006)




Jacob, um voluntário dinamarquês que trabalha em um orfanato de Bombaim (Mads Mikkelsen), é pressionado por sua chefe a viajar para Copenhagen e solicitar verbas a um empresário bilionário, Jörgen, que faz doações a entidades assistenciais. Chegando lá Jacob observa que o doador não está nem aí para causas humanitárias e o está manipulando. Convidado a comparecer no casamento da filha do empresário com um de seus funcionários (é indisfarçável o interesse do jovem pelo poder econômico do sogro), Jacob dá de cara com uma antiga paixão, Helene, mulher do magnata. Já não o fosse bastante impactante, a noiva faz um discurso na cerimônia em que revela aos convidados que o seu pai biológico não é Jörgen. Vem muita água por aí.

A maioria dos filmes escandinavos bate na mesma tecla. Enquanto filmes latino-americanas insistem: "nós somos uma sociedade ruim por culpa da burguesia", os do norte da Europa têm o seu mantra: "não somos o paraíso que imaginam, experimentem um pouco das nossas perversidades". As reações aqui,no entanto, são proporcionais, talvez com menos dramaticidade do que nos trópicos, mas as pessoas sofrem por razões legítimas. As dúvidas dos personagens são verossimilhantes, as suas escolhas têm a ver com o peso das opções. Não há psGostei bastante.

domingo, 31 de agosto de 2014

O Panoticum assiste três ótimos filmes seguidos (III) (390)


Entre nos
(2009)



Nova York, anos noventa. Um casal colombiano com um casal de filhos muda para Queens, e, após duas semanas, o pai se manda para Miami prometendo voltar dali a alguns meses para buscar a família. A mãe é informada dias depois que o marido os abandonou e daí em diante os três passam por grande sofrimento e penúria. Não falando inglês, querendo ganhar dinheiro vendendo empanadas, despejada, chega a dormir com as crianças na rua. Soma-se a isto o fato de que está grávida.

Co-dirigido pela atriz Paola Mendoza, o filme trata da vida de sua própria família nos primeiros meses em que chegaram aos EUA. O realismo do filme é impressionante, Nova York aqui é apenas uma grande cidade onde os fracos não tem vez. Ficamos tomados de grande indignação com a atitude do pai, e aflitos com a situação dos meninos, ao mesmo tempo em que me pergunto: por que há tantas mulheres que casam sem pensar e ainda fazem três filhos? Como podem ser tão tolas e irresponsáveis? Não conhecem métodos anticoncepcionais? 

O filho mais velho é mais esperto e centrado do que a mãe. Dá vontade de gritar: aprenda inglês, busque ajuda institucional, ponha a cabeça no lugar, senhora.

O Panoticum assiste três ótimos filmes seguidos (II) (389)


O visitante
(2007)


Um professor de Economia de Connecticut está entendiado com a profissão e com a vida. O seu chefe o obriga a fazer uma palestra em Nova York, e quando ele chega no seu apartamento no Village dá de cara com um casal de imigrantes morando lá, um músico de percussão sírio e sua esposa artesã senegalesa. Esclarecido o susto, o professor lhes permite que fiquem por lá alguns dias. Aos poucos se afeiçoa aos dois, particularmente ao percussionista.



Este é mais um filme inteligente sobre os imigrantes. Aborda a empatia crescente do estadunidense para com o drama dos refugiados e daqueles que vão aos EUA para ganhar a vida. Paralelamente, a busca por um sentido da vida encontra um caminho no relacionamento com outras pessoas. É a primeira vez que vejo o ator Richard Jenkins no papel principal e ele está muito bom como o professor humanista e contido. A palestina Hiam Abbass faz a mãe do percussionista. Achei importante a fala racista da palestina quando vê a nora, detestaria esta coisa de que os imigrantes são tolerantes e livres de preconceito porque vítimas. Fiquei impressionado com a falta de respeito no tratamento dos presos que aguardam deportação, embora desconfie de alguma manipulação aqui.

O Panoticum assiste três ótimos filmes seguidos (I) (388)


A vida dos outros
(2006)


Berlim Oriental. 1984. Um capitão da polícia secreta da Alemanha Oriental, a plenipotenciária Stasi, vigia, a pedido de um ministro da cultura, a vida de um raro escritor que acredita no Socialismo, mas acaba desenvolvendo uma paixão platônica por sua amante, uma atriz dependente de drogas (a excelente Martina Gedeck) e que, por sua vez, é amante do tal ministro. O insensível capitão, devoto quase cego do totalitarismo, passa a se encontrar em uma manobra dos superiores e começa ter dúvidas sobre o regime que defende e a vida que leva. Simultaneamente, passa a compreender os dilemas do escritor, pressionado pelos colegas e amigos adversários do Estado.


Não é fácil encontrar bons filmes sobre o totalitarismo, ou são filmes de diretores comunistas que adocicam o regime ou são caricaturas da Guerra Fria. A Stasi vasculhou a vida dos cidadãos de Berlim Oriental com mais zelo do que a KGB o fazia. Mas a Alemanha Oriental não teve massacre de milhões de seus cidadãos, a pressão se dava em um nível mais sorrateiro, menos bárbaro. Soma-se a isto o fato de que o padrão de vida da Alemanha Oriental não era ruim. Com o fim do totalitarismo na era Gorbatchev, um número significativo de alemães orientais ficaram inseguros com o ocaso do regime. E aqui não falo de burocratas privilegiados, mas de gente interessante e culta que não se enganava quanto ao caráter autoritário e asfixiante do governo de Honecker e nem babava ovo para o capitalismo.

Este filme reconstitui todas as filigranas de um Estado totalitário e o drama que assolava tanto os seus opositores como os seus defensores, como o policial e o escritor que protagonizam o roteiro.

P.S. O ator que faz o capitão (Ulrich Mühe) teria sido espionado, na vida real, pela esposa com quem foi casado por seis anos.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

"Aquele que não sabe fazer amor, sabe fazer a guerra" (387)





A Pedra da Paciência
(2012)



Afeganistão, em um passado recente. Em uma cidade indefinida, uma jovem mãe de duas filhas pequenas (a atriz iraniana refugiada Golshfiteh Farahani) passa horas revelando seus segredos para o marido em coma, um jihadista que levou uma bala na nuca. Preocupada mais com a sua própria situação e a das crianças, do que propriamente por amor ao homem com quem pouco conviveu em dez anos de casamento, a protagonista se reconforta com a possibilidade de poder dizer tudo o que pensa para o marido incapaz de ouvir.

Baseado em obra literária, esta co-produção franco-afegã-germânica é um filme mais voltado para o público feminino, e um pouco enfadonho para aqueles que acham que ouvir uma mulher expondo os mais íntimos sentimentos e temores por quase ininterrupta hora e meia pode ser meio sacal. Fiquei tentado a pular uns trechos, mas resisti. Mas é um filme inteligente, e reforça como o Islão é machista e aterrorizador. As revelações são surpreendentes.

O título é uma referência à uma rocha que serve como muro das lamentações para os islâmicos da região, creio eu.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O mais humanista dos almodovares (386)


A pele que habito
(2011)



Um rico cirurgião plástico (pleonasmo?) (A. Banderas) faz pesquisas sobre transgênese em uma paciente-cobaia. Após perder a esposa em função de um incêndio, ele cria uma pele capaz de resistir ao fogo e bate de frente contra o direito e a bioética. Paremos por aqui.

Resisti por muito tempo a ver este filme, mas agora com a Netflix tudo vale a pena mesmo quando a alma é pequena. Não gosto de ver cenas de cirurgias, o tema da vaidade já está saturando, e pensei se tratar de um filme voltado para a condição gay dos transgêneros, que "se sentem aprisionados em um corpo que não escolherem".

Na verdade, o filme tem tudo a ver com isto, muito a ver com Frankenstein, na verdade, embora não chegue a ser propriamente um filme de terror como li em uma resenha profissional. Inicialmente confuso, não sabemos a priori quem é a moça que vive em uma situação de cárcere privado misto de hospedagem, o filme, no entanto, se esclarece em flashbacks.

Gostei particularmente do final, uma valorização universal da identidade e da liberdade humana.

domingo, 24 de agosto de 2014

O primeiro filme globalizante de que tenho notícia. (385)


Amores brutos
(2000)


Na periferia da capital mexicana um jovem desempregado (Gael García Bernal) possui um cão, é apaixonado pela cunhada, uma adolescente mãe de um bebê, e seu irmão é caixa de supermercado durante o dia e assaltante à noite. O protagonista coloca o cão em lutas até a morte com o objetivo de fugir com a amada. Paralelamente um mendigo vagueia pelas ruas da cidade na companhia de seus cães e comete um homicídio mediante paga. Uma modelo fútil é amante de um editor de revista e tem um namorado galã de tv apenas para consumo do público. As estórias dos três protagonistas vão se cruzar.


Pouco depois de começar a ver este filme pensei: "está me lembrando muito Babel". Dããããã, é do mesmo diretor, o mexicano Iñárritu, é o seu primeiro longa, e Babel é uma conclusão de sua temática.. É um filme que tem muito a ver com a escola sociológica que caracteriza o cinema latino-americano, mas brilha mais pela autenticidade das personagens e situações do que por te querer fazer sentir culpa e passar a militar em movimentos de esquerda. Apesar de ser uma película de apenas duas horas e meia o filme possui uma densidade de roteiro de um longa de muitas horas. Daria tranquilamente uma boa minissérie. É curioso que eu não tenha assistido este filme até hoje. Destaca-se aqui a atuação de García Bernal, em seu segundo longa.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Assista primeiramente, antes de ler críticas (mas não deixe de fazê-lo depois) (384)


Sob a pele
(2014)


Uma alienígena (Scarlett Johansson, quem mais) chega à Edimburgo, se apropria da "pele" de uma jovem que acabara de morrer (ou ser morta) e passa a dirigir uma van pela ruas da cidade escocesa atraindo rapazes a título de pedir orientação no trânsito. Eventualmente ela obtém sucesso na armadilha e os vê sucumbir diante de sua beleza. Fria, mas provocante, ela segue esta jornada até que alguns incidentes de sedução a fazem despertar sentimentos genuínos, a "pele" adquire alguma autonomia e a transforma.


Quase desistiria deste filme, se não fosse por duas razões: a trilha sonora impactante, e a fotografia impecável de paisagens escocesas. Isto combinado provoca ansiedade, e muito me lembrou filmes como O homem que caiu na Terra e Liquid Sky. Após ler algumas críticas vejo que a minha intuição me ajudou a compreender o filme, há uma crítica ao culto à beleza e ao vazio existencial preenchido pelo hedonismo. Mas há também a questão do corpo como limite ao poder e como meio de humanização. Duas cenas aqui são cruciais, a alienígena fatal se vê impotente diante do mais feio dos mortais e um homem a ajuda sem segundas intenções, apenas por empatia.

Se o objetivo de colocar Scarlett Johansson como protagonista se deve ao seu corpo, sucesso. Mas independentemente disto, foi um de seus melhores papéis, desde Encontros e Desencontros.

O final traz meio que um castigo, uma punição, uma revanche masculina, mas não vou avançar nestes temas psicanalíticos.


sábado, 16 de agosto de 2014

Divertido e estiloso (383)


O grande hotel Budapeste
(2014)


Europa central, país fictício, 1932. Em um hotel luxuoso um garoto muçulmano consegue emprego de auxiliar e trabalha com um excêntrico gerente (Ralph Fiennes) que seduz mulheres ricas e idosas. Uma milionária (Tilda Swinton) vem a falecer e lhe deixa um quadro valioso, provocando a ira de seu filho (Adrien Brody). Isto nos é contado em flashback por Zero Moustafa, o lobby boy (F.Murray Abraham) para um escritor (Jude Law) que no hotel se hospedou em 1968, e por sua vez o conta a uma garota em 1986.


Baseado em escritos de Stephan Zweig, o escritor que suicidou em Petrópolis (1942) e chegou a acreditar que o Brasil seria o país do futuro (deveria ter razões para isto, na época), este badalado filme de Wes Anderson conta com uma plêiade de bons atores (soma-se aos que citei: Edward Norton, Willem Dafoe e Harvey Keitel) e um amigo do diretor (Owen Wilson). É uma boa comédia, com personagens caricatos e pode encantar o espectador pela grandiosidade do hotel e locações (Alemanha e República Tcheca). Várias cenas têm a rapidez dos filmes antigos. 


Vale a pena sair de casa para vê-lo? Sem dúvida, mas Wes Anderson não fez nenhuma obra-prima, a menos que o (a) leitor(a) ache que Tannenbaums e Darjeeling é coisa que se preze.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Não falam assim, mas pensam assim (382)


O que os homens falam
(2012)



Barcelona, na atualidade. Uma meia dúzia de homens entre 35 e 55 anos, aproximadamente, estão em maus lençóis. Ou estão divorciados, ou divorciando, ou perdendo a esposa, ou mal-casados. Em episódios independentes, eles fazem o que homens normalmente não são muito chegados (não estou falando do seu psicólogo, do seu professor doutor em filosofia, do seu poeta, não falo de quem por dever cumpre a agenda feminista): falar de suas emoções, dos seus relacionamentos, dos seus medos, etc. Nunca na minha vida ouvi colegas meus ou parentes se abrirem a tal ponto com outros homens (não estou falando do meu psicólogo, do meu professor doutor em filosofia, do meu poeta, falo de homens inteligentes, mas não de militantes). 

Não que as situações sejam inverossímeis, duas delas são bem verídicas: o homem abandonado pela amante que busca se reconciliar com a esposa, e o colega de trabalho que de repente se interessa pela colega que emagreceu, ficou gostosa e com fama de acessível, isto tudo é bem masculino.



Achei uma boa comédia catalã (dirigida e filmada na Catalunha) em que se destacam Ricardo Darín e Eduardo Noriega. Há um tom de lição bem dada nos homens em um determinado episódio, mas é algo do tipo "nós bem que merecemos". Gostei bastante, inteligência, humor e narrativas eficazes sempre dão certo no cinema. 


Bom, parece que é impossível que eu vá ao cinema sem ter o que contar, né? Fomos no "cinema de arte" que há no centro. Para surpresa minha, era sessão cidadão por um realzito. Fiquei pensando, que bacana, cinema para o povo. Todo mundo pode pagar um real, mais barato do que a passagem de ônibus.

Pois bem, duas moças tentaram furar a fila e ficaram espantadas porque as pedi para que respeitassem não só a nós mas a um casal de idosos logo em seguida. Apareceu uma galera tipo alunos de ensino médio matando aulas que aprontaram um auê antes do filme. Uma moça levou o filho de uns dois anos (sessão noturna) e ele já chegou pedindo para ir embora. O filme começou e o povo, nada. Ouvi alguns tímidos "shh" e vi que isto não intimidaria ninguém.

Falei: "Silêncio".

Os pedidos de silêncio aumentaram, aproveitei a deixa e disse, com firmeza, em voz alta, sem rancor: "Não sabe ir ao cinema, fique em casa". Funcionou uma meia-hora.

Viajar me deixa seguro em exigir civilidade de outras pessoas. Assistimos um filme em Lisboa uma vez e o silêncio foi absoluto. Aqui também deveria ser assim. Quem está errado não reprime a sua atitude incorreta, porque eu deveria reprimir a minha indignação? 

O Panótico vê o seu primeiro filme saudita.(381)


O sonho de Wadjda
(2012)


Wadjda é uma pré-adolescente que vive em um subúrbio da capital saudita, Riad. Meio moleca, possui gostos ocidentais, não dá muita pelota para regras e quer juntar dinheiro para comprar uma bicicleta, algo contraindicado para mulheres porque há o contato do selim com suas partes íntimas. Abdullah é o "homenzinho" que a corteja, um menino hábil e prestativo. O pai de Wadjda volta e meia vai para o colo da mamãe que lhe quer arranjar outra esposa, já que a mãe de Wadjda não engravida novamente.


A Arábia Saudita é uma beleza. Monarquia absolutista teocrática, sem parlamento livre, sem constituição, fundamentalista, persegue as minoria xiítas e cristãs, endossa casamentos endogâmicos o que contribui para o nascimento de pessoas portadoras de deficiências, pune com chicotadas mulheres adúlteras, poligamia masculina, não há cinemas, as escolas mandam os alunos decorarem o Alcorão, um país que só parece produzir petróleo e repressão.


Dirigido por uma mulher, eu nem sei como este filme pôde ter sido feito por lá, seria um pálido sinal de esperança? Gostei do enfoque, a religião se impõe mais pelo poder do que pela devoção sincera. A repressora diretora da escola, uma réplica islâmica de muitas pedagogas brasileiras, se utiliza dos princípios mais para conservar o próprio cargo do que por sua pureza (em determinada cena a rebelde Wadjda lhe joga na cara que sabe de seu amante). Também achei interessante que a diretora e a mãe da garota são muito bonitas, parece que a sua sensualidade fica bem evidente quando estão na companhia de outras mulheres, é como se o filme dissesse: quem ousou colocar estas fogosas debaixo de tantos panos? Por outro lado, como a Arábia Saudita jamais experimentou um governo ocidentalizante, as sauditas não têm a postura agressiva e rebelde das iranianas, não lhes foi tomada uma liberdade que nunca tiveram. O dilema da mãe da garota é entre a dor de não ser mais tão amada pelo marido com a vontade de saber se resignar diante da sociedade que impõe a poligamia masculina.

O filme tem aquela coisa do patinho feio que vira um cisne mas é envolvente, cheio de sutilezas da luta da liberdade contra a repressão e a hipocrisia. Gostei bem.