Juiz de Fora

terça-feira, 24 de maio de 2011

Questões relevantes


Eu gosto muito de responder a questionários e reproduzo aqui, de forma adaptada, este extraído de: http://cameliadepedra.blogspot.com/

1 - Qual foi o livro que você leu por mais vezes?

Baudolino, Umberto Eco, em quatro ocasiões.

2 - Qual foi o livro que lhe abriu o caminho da leitura?

Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, na antiga terceira série.

3 - Qual foi a leitura atrasada que mais lhe marcou?

O lobo da estepe de Hermann Hesse. Eu o li aos trinta e deveria ter lido aos dezoito anos.

4 - Você já deixou algum livro de lado, o retomou algumas vezes e não o concluiu?

Sim, História do cerco de Lisboa, de Saramago.

5 - Que gênero literário é subestimado?

Os romances policiais, as graphic novels, e as biografias.

6 - O que você está lendo atualmente?

2666, de Roberto Bolaño, forte candidato a livro do século.

7 - Que livro você não gostaria de ganhar de presente?

Qualquer um do Paulo Coelho. Eu me ofendo facilmente.

8 - Que livro você pegou emprestado, leu, devolveu, esqueceu de comprá-lo e agora já era?

Smilla e o sentido da neve. Mas é mentira, dá para achá-lo na estante virtual.

9 - Que lançamento literário vocâ achou uma bela peça de marketing?

Poesias de Lord Byron. Acompanhava uma garrafinha de whisky.

10 - Qual é a "suprema pergunta imbecil" que se faz a alguém que tem uma biblioteca razoável?

Você já leu todos estes livros?



O Panótico vê aqui e agora (108)


O segundo rosto
(Seconds/1966)



Após assistir aquela nulidade de A rede social, filme que me deu nos nervos, eu precisava mesmo assistir uma obra de cineasta, algo de alguém que está irritado - ou empolgado - a ponto de aproveitar a grana e oportunidade para produzir cinema de qualidade. Os filmes distribuídos no Brasil pela Lume tem esta característica.



A pancada já começa com imagens distorcidas, um breve sinal de que vem algo forte pelo caminho. Filmado em preto e branco, - mas que preto e branco! -, um senhor digno de um Ulysses leva uma vida pachorrenta de gerente ou diretor de banco, até que recebe um telefonema de um amigão da juventude, dado como morto. O renascido lhe esclarece que contratou uma empresa para lhe dar uma nova vida: nova identidade, novo nome e nova fisionomia. O protagonista embarca nesta e renasce como um pintor.




Estrelado por Rock Hudson, que inteligentemente não queria ser apenas um galã, - não é Brad Pitt, Tom Cruise, Mel Gibson, Jude Law e tantos outros? - este Segundo Rosto, dirigido por John Frankenheimer, foi mal recebido na época e chegou a ser vaiado em Cannes. Bom, eu não acho mesmo que Cannes seja um festival "alternativo" mas isto é outro papo.






Quem já teve contato com o cinema alemão dos anos vinte pode não encontrar quaisquer aspectos de vanguarda neste filme, mas há de convir que para o cinema estadunidense em plena guerra fria é uma cutucada bem dada em certas convicções da "normal life" da terra do Tio Sam.



segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Panótico vê aqui e agora (108)


Uma mulher, uma arma e uma loja de macarrão
(2009)




De cada dez filmes estadunidenses lançados no mercado eu me interesso em assistir um ou dois; de cada dez europeus eu tenho interesse em ver pelo menos uma meia dúzia; de cada dez chineses oito ou nove atendem ao meu paladar. Peguei este filme pela capa, numa noite sonolenta e preguiçosa. Chegando em casa, duas surpresas: o filme é de Zhang Yimou, este mestre que deu à humanidade o meu vice-campeão cinematográfico Heroi, já há muito resenhado aqui e outras preciosidades; a segunda surpresa me deixou pensativo: refilmagem do primeiro filme dos irmãos Coen, "Gosto de Sangue" (1984), para quê? E como eu não o conheço, fica a pergunta: vou curti-lo de pleno?


Na China central do século XVII um mercador persa vende uma arma para uma jovem esposa de um típico senhor rural, que a maltrata e desconfia de sua fidelidade. Um jovem empregado se enamora da patroa e outros dois empregados caricatos estão com os seus salários atrasados. O proprietário resolve contratar um policial para dar cabo da mulher e de seu suposto amante.


Como nos filmes de Coen, as pessoas são meio parvas e quase tudo sai errado. A fotografia é impecável, assim como tudo que cheira ao artístico: figurinos, mobiliário, instrumentos e utensílios artesanais, tudo dentro do padrão Zhang Yimou de qualidade. Mas, francamente, e por não conhecer a obra parafraseada, o filme em si não despertou a minha empatia.



domingo, 22 de maio de 2011

O Panótico vê aqui e agora (107)


O pecado mora ao lado
(1955)



Eu podia ter visto este filme há uns trinta anos atrás.



Mas Tom Ewell era um ator muito mala, fazendo um meia-idade babão. O tema é pertinente: como ser um bom marido, - leia-se fiel - em um mundo contemporâneo com tentações adjacentes.




Já Marilyn, para que gastar palavras?




Vivam as gordinhas de outrora neste mundo de modelos "que não têm bund nem chen"




Eu poderia ter visto este filme daqui a trinta anos.




Não faria diferença.

O Panótico vê aqui e agora (106)


A rede social
(2010)

Algumas razões para você não perder tempo com este filme: é uma chuva ininterrupta de clichês sobre nerds, "gênios", jovens empreendedores, diálogos intensos, golden boys riquíssimos da Nova Inglaterra, garotas oferecidas, sessões juridicas de conciliação, irmandades de faculdades, e o que é pior, um protagonista ressentido, manipulador, rancoroso, que de cara você não associa às fotos do sorridente Mark Zuckenberg divulgadas pela imprensa mundial, fã de arte e cultura clássica. A estória de um empreendimento medianamente interessante transformada em algo tipo: "sim, nós somos a América!". Busquei mais informações e firmei a convicção de que este filme é uma bobagem. Cinema de segunda. Filme para.... deixa para lá. Gostei tão somente da trilha sonora.







sábado, 21 de maio de 2011

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Teleco, o coelhinho (ou por que Rubião não se inspirou em Kafka)



É muito comum se afirmar que Murilo Rubião (1916-91), um escritor brasileiro de contos "fantásticos" e do absurdo, já resenhado aqui, teria se inspirado em Franz Kafka (1883-1924), autor de Metamorfose e de O processo, que dispensam maiores apresentações. A comparação - e a suspeita - são mais do que justas, embora o escritor mineiro tenha dito que não havia ainda lido Kafka quando da publicação de seus primeiros contos (1947). Após ler quase toda  a obra completa do escritor mineiro, e também os dois clássicos do escritor tcheco, vou deixar aqui um trecho que demonstra, a meu ver, que Rubião escrevia coisas estranhas ao universo sombrio do habitante da Europa central do início do século XX.




Teleco, o coelhinho

- Moço, me dá um cigarro?

A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.
O importuno pedinte insistia:
- Moço, oh! moço! Moço, me dá um cigarro?
Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:
- Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.
- Está bem, moço. Não se zangue. E, por favor, saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.
Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente:
- Você não dá é porque não tem, não é, moço?



"Você não dá é porque não tem, não é, moço?"!!!

Esta pergunta, esta autopiedade, esta autocomiseração, este sentimento de que eu posso até ficar sem aquilo que eu quero, o que eu não posso suportar é o outro não gostar de mim, sem mais nem menos, assim, de graça, não ir com a minha cara, isto é a ideologia do homem da terra brasilis. Logo, podem não me dar escola, saúde, trabalho, moradia digna, comida, diversão e arte, nós podemos passar sem, o que não suportamos é não gostarem de nós, nós precisamos de um presidente que nos ame como jamais nos amaram, rs...




domingo, 15 de maio de 2011

O Panótico vê aqui e agora (105)


Fora da lei
(2010)

Em 1985 assisti "A batalha de Argel", sem saber de que se tratava de um clássico. O filme, uma obra realista de qualidade, abordava o crescimento da Frente de Libertação Nacional (FLN) argelina, e sua repressão pelas tropas francesas do general Massu, um psicopata que se aplicava choques elétricos para verificar a eficiência da tortura contra os militantes daquela organização revolucionária. Sem acreditar no maniqueísmo típico deste gênero político curti de montão o filme, mesmo assim, pois o roteiro era muito envolvente. Naquela época diversos professores meus comentaram que era dificílimo, ou mesmo impossível, encontrar alguma obra acadêmica sobre a independência da Argélia nas livrarias francesas (assim como sobre o Estado Novo salazarista, nas livrarias portuguesas). Recordo-me também que ainda se falava de estudantes brasileiros que pretendiam ir treinar guerrilha na Argélia, um anacronismo de pelo menos uma década, porque na verdade a galera jovem de extrema-esquerda tinha mais romantismo por Cuba ou pela Nicarágua sandinista.



Este Fora da Lei se inicia em uma área rural argelina, em 1925, quando uma família de posseiros recebe uma ordem judicial de reintegração de posse ao titular do domínio pelas mãos de um delegado local (alcaide). A luz amarela acendeu na minha mente: mais um filme sobre a expulsão dos camponeses de sua terra. Mas em seguida a trama desloca-se para 8 de maio de 1945, quando a derrota dos nazistas deixa a Argélia governada por Vichy momentaneamente sem governo sólido, e a população (masculina) de Argel aproveita para fazer uma passeata pela independência da colônia francesa. Um policial civil mata um manifestante e segue-se uma absurda e desproporcional repressão.



A família da cena inicial lá estava. O idoso pai é morto e restam a mãe e os três filhos protagonistas: Masseaud vai para a Indochina, como soldado do exército francês a ser derrotado pelos vietnamitas de Ho Chi Minh; Abdelkhader foi preso na manifestação, condenado e transferido para uma penitenciária em Paris; o caçula Said, mais interessado em boxe do que em política, convence a mãe a se mudarem para a capital francesa.

Em 1955 lá estão os três irmãos: o primogênito Masseaud larga o exército convencido de que os argelinos, assim como os vietnamitas, poderiam derrotar o imperialismo francês. Abdelkhader sai da prisão direto para funções de chefia na FLN, e o pragmático Said entra para a criminalidade.



O roteiro é interessante, fortemente inspirado em clássicos filmes de gângsteres, a fotografia é muito boa (o diretor Rachid Mouchareb é o mesmo de London River, aqui resenhado há algumas semanas atrás)., e as personagens são capazes de ganhar a atenção do público, mesmo o menos afeito a temas políticos. Há os típicos clichês do gênero: o pragmático apolítico mas que as circunstâncias o levam para a questão social; o idealista de juventude que se vai tornando uma pessoa estreita, sem ponderações; o revolucionário que não perdeu a dimensão humana, a "ternura" pelo próximo, e que vê suas ações violentas como algo "necessário" mas sabe que isto o afasta das pessoas que ama; o policial arrivista disposto a toda a violência para ganhar uma promoção; o policial que defende a ordem mas compreende os adversários; a mãe que ama os filhos mas tolera a sua luta política; a mulher muçulmana submissa; a mulher europeia independente.

Como relato histórico deixa muitas lacunas. Li que houve grande repercussão em sua exibição no Festival de Cannes, e segurança policial extra para o diretor franco-argelino Mouchareb. O filme é mais simpático aos argelinos do que aos franceses. Bom, é o mínimo que se espera, o contrário é que seria espantoso.

Gostei muito, it's only a movie, but I like it.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Daqui a um mês


A tradicional corrida de 24 horas de Le Mans deveria ser proibida.



Realizada no noroeste da França desde a década de vinte, cinquenta e cinco carros percorrendo um circuito de treze quilômetros em aproximadamente quatrocentas voltas, consumindo mais de duzentos mil litros de combustível e mais de dez mil pneus. Que prejuízo para o planeta.



Mas enquanto não proibem - e duvido que isto aconteça nas próximas décadas - esta corrida fascinante me empolga, particularmente durante a madrugada. Palco da disputa entre Ford, Ferrari e Porsche, conforme imortalizado em filme com Steve McQueen (1969), o foco nas dois últimos decênios tem sido os protótipos, carros não comercializáveis que já chegaram aos 400 km/h, e nas últimas dez corridas os Audi têm demonstrado serem menos rápidos que os arquirrivais Peugeot, mas mais confiáveis. Na edição do ano passado os quatro Peugeot 908 pegaram fogo e cederam o pódio para os três Audi R15. Para este ano o predomínio dos 908 sobre o novo Audi R18 parece que se repetirá em termos de velocidade final, conforme já evidenciado na corrida de 1000 km de Spa Francorchamps realizada no último fim de semana.








sábado, 7 de maio de 2011

O Panótico vê aqui e agora (104)

Os cinco obstáculos
(2003)

Lars von Trier é um diretor genial. Os críticos acham. Os cinéfilos acham. As pessoas que trabalham em locadoras e seus clientes acham. Até o próprio Lars von Trier também acha, e "o maior diretor de cinema do mundo", nas suas próprias palavras, só isso. Então, como muitas vezes acontece de que eu não alcance a sabedoria alheia resolvi me dar uma terceira chance de assisti-lo. O menino prodígio da Dinamarca propõe ao seu conterrâneo também diretor de cinema Jorgen Leth refilmar "O homem perfeito" (1967), por cinco vezes, com no máximo doze quadros, cada uma delas com um obstáculo diferente, em uma conversa na qual comem caviar: em Cuba mas sem mostrar a paisagem, Jorgen Leth no papel título, no distrito vermelho de Bombay, como um desenho animado... E tudo isto porque Lars von Trier quer abalar a estabilidade emocional de seu amigo e mentor cobaia Jorgen Leth. Mas Leth é decidido, e diz que pode interpretar o homem perfeito sob quaisquer condições porque "eu sou genial" (assim, aos vinte quatro minutos de filme). Realmente, é tudo tão... genial.



Das noções banais que as pessoas levam da adolescência para a vida adulta, o mito da perfeição combinada à genialidade é a que mais gerou fascínoras. Lars von Trier, "não me faz te pegar nojo".

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Panótico vê aqui e agora (103)


Defamation
(2009)

Este é um documentário do qual não conheço produção semelhante: um filme israelense que aborda, e denuncia,  a "indústria" do antissemitismo, ou numa palavra: vai contra a ideologia do sionismo e do Estado de Israel. Antes de tratar deste empreendimento que nada contra a maré vou explicitar aqui o que penso sobre o assunto, fruto da leitura de dezenas de livros sobre o tema e afins, dos espectros ideológicos os mais antagônicos, por conta de que a leitura de "Exodus", de Leon Uris, já resenhado aqui, despertou o meu interesse sobre o judaísmo muito antes de ter decidido cursar História. Se o(a) leitor(a) quer apenas a minha opinião sobre o filme pode muito bem pular o meu esqueminha. Se, após lê-lo, não concordar com o que digo, é só comentar.

1. O povo hebreu não é melhor e nem pior do que nenhuma outra nação, não foi escolhido por Deus, não merece mais e nem menos o território de Israel, a religião não é fundamento válido para o Direito Internacional.

2. Os hebreus espalharam-se pela Europa anteriormente à Diáspora do imperador Adriano.

3. Durante a Idade Média os judeus foram tolerados pelos muçulmanos e perseguidos moderadamente pelos cristãos, e obtiveram, mediante pagamento, proteção dos imperadores germânicos, principalmente. 

4. Durante a Contrarreforma os judeus foram sistematicamente perseguidos pelos Estados católicos, e Portugal e Espanha perderam com a sua expulsão, devido ao dinamismo econômico dos sefarditas.

5. O absolutismo monárquico na Europa Central e Oriental discriminou sistematicamente os judeus. O antissemitismo alemão é de longa data, e a situação dos judeus, vítimas dos progroms do império russo, contribuiu para o surgimento do sionismo, no final do século XIX.

6. Afirmar que um povo viveu em tal território há séculos atrás não é fundamento válido para "devolvê-lo" às custas de outrem que lá há muito se estabeleceu e lá continua habitando. Do contrário, vamo-nos todos de volta para Portugal ou para a África.

7. Os judeus migraram para a região do Jordão durante o império otomano e durante a ocupação britânica, mediante a aquisição de terras e da usucapião, que, em tese, são formas originárias de propriedade em qualquer sociedade.

8. A Europa e a ONU lavaram as mãos para a situação dos palestinos após a criação do Estado de Israel (1948).

9. Israel foi o grande aliado dos EUA na região, durante a Guerra Fria.

10. A Guerra dos Seis Dias é o grande marco do imperialismo israelense, muito por culpa da própria política militarista da República Árabe Unida (Egito, Jordânia e Síria).

11. O terrorismo de palestinos e aliados não se justifica, é estrategicamente inócuo, e converteu-se em uma indústria de poder (década de setenta aos dias atuais).

12. Os Estados muçulmanos vizinhos usaram Israel como desculpa para não se converterem em democracias. 

13. Assim como parte dos palestinos não apoiam o terrorismo, parte dos israelenses não apoiam o sionismo.

14. A obra Os protocolos dos sábios de Sião (1897) foi uma farsa de burocratas reacionários do governo do czar Nicolau II que se opunham à reformas liberais. Independentemente disto, é pública e notória a influência dos judeus nos meios de comunicação da Alemanha de Weimar, e nos EUA dos séculos XX e XXI.



Yoav Shamir, um jovem de uns trinta anos, dirigiu e narra, em inglês com sotaque iídiche, creio, este documentário na linha de Michael Moore, com o mesmo humor inteligente, mas um pouco menos militante, não tão pessoalmente invasivo como o cineasta de Flint, Michigan. Shamir observa que: nunca sentiu pessoalmente o antissemitismo a que o Estado de Israel e a imprensa israelense atribuem a toda e qualquer nação, não só às muçulmanas, mas também às latinoamericanas, à França e à Alemanha. Membro da terceira geração de israelenses (a primeira é a do Holocausto, a segunda, já nascida em Israel após a independência) Shamir demonstra como o governo cria e mantém, entre os mais jovens, que a princípio não se emocionam pela tragédia dos avós, um permanente medo dos estrangeiros. Simultaneamente, vai aos EUA e filma as agências que trabalham a todo instante para detectar possíveis traços de antissemitismo em qualquer coisa que se publique na Terra do Tio Sam. Alguns depoimentos são marcantes: um judeu idoso afirma: antissemitismo não existe, uma judia idosa e oriunda do leste europeu critica os judeus estadunidenses: eles não vêm para cá (Israel) porque só pensam em dinheiro, e por aí vai. Deve ter dado o que falar este documentário lá pelos lados de Tel Aviv.


O Panótico lê aqui e agora (16)


Sagarana
(Guimarães Rosa/1945)

Não li Guimarães Rosa anteriormente por duas razões: a primeira porque a leitura inicial de Grandes Sertões: Veredas só gerou em mim um sentimento: tédio; a segunda, porque o magistério, particularmente o das séries inicias, adora fingir que lê, entende e ama a obra deste grande escritor nacional. Já deixei de ler, ver e ouvir muita coisa por antipatia aos seus fãs, o que no fundo é uma bobagem, mas cultura tem que ser, acima de tudo, prazeirosa.



Mas dever de casa é dever de casa, e para hoje está marcada a análise de sua última novela, A hora e a vez de Augusto Matraga. Após a leitura de suas primeiras quinze páginas fiquei um pouco desmotivado e busquei resumos na net, de vestibulandos mesmo, este hábito que nenhum mestrando gosta de assumir, mas prefiro-o a simplesmente lançar mão da clássica desculpa: "Não li porque não tive tempo". Tendo compreendido o enredo, coloquei-me diante das páginas restantes. Não vou aqui analisar esta obra que já foi e continuará sendo produto de sérios estudos literários. Ao leitor, posso afirmar: a sua compreensão não está muito acima de um romance médio, os neologismos criam poucas dificuldades; o regionalismo é, aparentemente, noventa por cento da obra, e se a pessoa não se interessa pelo mundo rural das Gerais é bom procurar outra coisa para ler. Mas após a vez do Nhô Augusto comecei a obra do seu início.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Panótico vê aqui e agora (102)


Rio
(2011)

Ontem eu e minha namorada fomos assistir Rio, nas salas de cinema que ficam ao final de minha rua. Cinema como forma de esquecer os aborrecimentos e contrariedades da vida é o que há, são cem minutos em que podemos nos desligar e só curtir. Mesmo sabendo que se trata de uma obra de Carlos Saldanha (A era do gelo), o tema em si - a cidade do Rio - não me atrai muito. Explico-me: o Rio é muito bonito (parte dele), e eu moraria lá numa boa se não fosse a violência e o calor que efetivamente é equatorial. Mas como símbolo mor do Brasil esta coisa sol-sul-sal-céu, etc. é um pé no saco. Anos e anos de Plim-Plim e "cidade maravilhosa", idem. E Sérgio Mendes, putz, que mala, que cara mais ...Los Angeles. 



Mas, lógico, a trama é sempre politicamente correta, o Bem vence o Mal, a natureza e os valores vencem o lucro, e as personagens são simpáticas, divertidas, com piadinhas contemporâneas, é mais para adulto do que para crianças, enfim, não há como não gostar. As animações em Santa Tereza e Lapa são o ponto alto do desenho, gráficos impecáveis, ponto alto da inteligência desta criação.



Eu imaginava que Carlos Saldanha poderia evitar, ou pelo menos reduzir, os americanismos inevitáveis, tais como: a censura ao vestuário feminino na praia e no carnaval e os muitos sambinhas filtrados de Sérgio Mendes. Mas, santa ingenuidade, cinema é lucro, e a família caipira estadunidense meio-oeste fundamentalista lá irá com seus bonequinhos do McDonalds. Pô, mas Sérgio Mendes, que mala, que cara mais....


Aos meus leitores

Meus amigos(as) leitores(as).

Desde domingo à noite venho pensando em escrever sobre este ato de barbárie praticado pelos EUA, não apenas contra um indivíduo, ainda que abominável, mas contra os seus familiares, contra a religião, contra um Estado soberano, mas principalmente contra os direitos humanos.

Quem me lê e me conhece sabe o quanto eu sou crítico, mas não comungo opiniões políticas radicais, e abomino tanto a extrema esquerda como a extrema direita. No entanto, por razões pessoais, tenho andado meio cansado de polêmicas infantis na net, particularmente com quem tem dificuldades com a língua portuguesa. Dado isto, peço ajuda à pessoas mais sábias do que eu e reproduzo este artigo como fiel expressão do que penso sobre os eventos de domingo à noite. Peço que leiam o que vem a seguir, por vocês. Muito obrigado e um grande abraço.



Enquanto muitos líderes mundiais aplaudiam a operação norte-americana que resultou na morte de Osama bin Laden, alguns europeus questionaram os Estados Unidos por assumir o papel de polícia, juiz e executor.
"Foi claramente uma violação do direito internacional", disse o ex-chanceler (primeiro-ministro) alemão-ocidental Helmut Schmidt a uma TV alemã. "A operação poderia também ter consequências incalculáveis no mundo árabe à luz de todas as turbulências."
Ehrhart Koerting, ministro do Interior da cidade-Estado de Berlim, disse: "Como advogado, eu preferia ver (Bin Laden) sendo levado a julgamento no Tribunal Penal Internacional."
O jurista holandês Gert-Jan Knoops, especializado em direito internacional, declarou que o líder da Al Qaeda deveria ter sido preso e extraditado para os Estados Unidos. Ele traçou um paralelo com a situação do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, que foi levado a julgamento no tribunal de crimes de guerra de Haia após ser preso em 2001.
"Os norte-americanos se dizem em guerra contra o terrorismo, e que podem eliminar seus adversários no campo de batalha", disse Knoops. "Mas, em um sentido estritamente formal, este argumento não se sustenta."
Reed Brody, consultor da entidade Human Rights Watch, de Nova York, disse que é cedo para dizer se a operação dos EUA foi legal, porque poucos detalhes foram divulgados.
"Gostaríamos de saber quais foram as ordens, quais foram as regras de abordagem. Queremos saber exatamente o que aconteceu (...) e em que os EUA alegam que Bin Laden estava realmente envolvido", afirmou.
"Será que o mundo é um lugar melhor por Bin Laden não estar aí? Pode-se obviamente responder a essa pergunta. Mas será que isso significa que você tem o direito de violar os protocolos de direitos humanos ou o direito internacional para fazer isso? Aí, não."
A alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, pediu aos EUA que forneçam à ONU detalhes completos sobre a morte de Bin Laden. "As Nações Unidas têm consistentemente enfatizado que todos os atos de contraterrorismo precisam respeitar o direito internacional", afirmou ela.

terça-feira, 3 de maio de 2011

My best loved 1971 rock albums (5)

Aqualung
(Jethro Tull/1971)

Minha quinta escolha entre os lps lançados em 1971 é uma homenagem e um reparo a uma injustiça. Ouvi Aqualung pela primeira vez na casa de uma colega de escola, em Santos Dumont, uma família muito legal com cinco irmãs. A mais velha tinha alguns discos, quase tudo de novela, e a capa e contracapa com caracteres germânicos encheram a minha imaginação. Pedi-o de Natal, em 1979. A faixa Aqualung ficou rápido na minha cabeça. O restante do disco não me empolgou, e já fascinado pelo Genesis e pelo Yes achei o Jethro Tull um grupo menor, e com sérias dúvidas se o seu trabalho se enquadrava no progressivo ou não.



Deixei-o de lado, não comprei - e nem ouvi - mais nada do Jethro Tull, e aqui em Juiz de Fora o grupo era menos amado apenas do que o Pink Floyd, o Led Zeppelin e o Deep Purple, chegando a ter mais fãs que as demais bandas de progressivo. O som mais roqueiro do Jethro Tull, e a figuraça do cantor Ian Anderson ganhavam o coração das pessoas mais afeitas ao lado contracultural do rock, o que nunca foi o meu caso, mais chegado ao lirismo romântico de Peter Gabriel e de Jon Anderson.



Em 1985 o meu colega professor de História, Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, deu um presente para os fãs de progressivo, marcando um gol contra os nossos "irmãos terríveis", os fãs de hard e heavy metal: gravaram uma pulsante versão de Cross-Eyed Mary. Eu ria com prazer de familiares e colegas, fãs do Maiden, diante deste testemunho inequívoco do metal em favor do progressivo, picuinha divertida de quem é muito jovem e dá importância excessiva a este tipo de competição. Outro folclore que cercava este disco era a conversa de que um vestibulando ao antigo CTU fez uma redação, e teria passado no exame, tendo como fundamento os versos de Ian Anderson na contracapa.

Os britânicos do Jethro Tull são de Blackpool, uma cidade do norte da Inglaterra, formados em 1967. Aqualung é o seu quarto álbum. Os fãs da banda oscilam em afirmar que o melhor trabalho do grupo ou foi Thick as break (1972) ou A passion play (1973). Aqui em Juiz de Fora havia pessoas que gostavam bem de Songs from the Wood (1977). Em 1982, com Broadsword and the beast a banda "modernizou" o som, mas manteve o público fiel assim mesmo. Quando estiveram no Brasil, em 1988, a imprensa zombou da "velhice" do cantor Ian Anderson, - então com quarenta anos - e ele entrou no palco em cadeira de rodas, algo possível pouco antes da onda do politicamente correto. É dele duas frases: "Eu não gosto de músicas de países quentes" e: "Sempre me perguntam por que nós estamos novamente no Brasil para tocar, ninguém vem aqui mais de uma vez" Não, não vinha...



Aqualung. Mal me lembrava deste disco, que eu tenho somente em vinil. Cadê ele?