Juiz de Fora

domingo, 10 de julho de 2011

O Panótico vê aqui e agora (127)



Um conto chinês
(2011)






Roberto (Ricardo Darin) é um comerciante de materiais de construção, meia-idade, que reside na periferia de Buenos Aires. Rabugento e misantropo, o filme explica o permanente mau-humor do protagonista por não ter ele conhecido a sua mãe, que faleceu quando era criança e por ter também perdido o pai na juventude. Roberto tem o hábito de colecionar notícias bizarras de jornal e gosta de ver os aviões decolando e aterrizando no aeroporto de Buenos Aires. Há também uma simpática moça interiorana que paquera Roberto, mas este tenta se esquivar dela.



Em um destes momentos de lazer ele vê um jovem chinês, Jun, ser jogado fora de um táxi. O chinês, que nada fala de espanhol, é socorrido por Roberto, e lhe exibe um endereço anotado no braço e lhe implora por ajuda. Roberto não tem outra alternativa a não ser  levar o estrangeiro, muito a contra-gosto, para sua casa, enquanto as autoridades policiais e consulares pouco fazem de concreto pelo oriental que está à procura de um tio residente sabe-se onde na Argentina. Roberto dá a Jun o prazo de um semana para encontrar o parente e sumir de sua vida.

O cinema argentino tem uma trajetória semelhante ao brasileiro, ao que parece. Levaram décadas para descobrir que o que faz um bom filme é, principalmente, contar uma boa estória. Diretores, atores, cenários, fotografia, podem ajudar, e muito. Mas sem um bom enredo a coisa não vai para frente.


Uma boa estória. Este filme é uma delas.

sábado, 9 de julho de 2011

O Panótico vê aqui e agora (126)


2046
(2004)







Este filme chinês de Wong Kar Wai me deixou confuso no início. Começa com ares de ficção científica: no futuro há uma extensa malha ferroviária que permitiria viajar no tempo, e as pessoas transitavam até o ano de 2046, um ano em que, sem uma explicação mínima, as pessoas poderiam revisitar seu passado. Um rapaz para este ano se desloca, mas retorna ao presente, contrariando a unanimidade geral. Mas esta é uma estória inserida no enredo principal, ambientado na Hong Kong de 1966, ano em que o escritor de 2046, na verdade um quarto de um hotel muquifo, apaixona-se, mas sem correspondência recíproca. Entendido isto, o filme é bem interessante, e eu gosto muito dos atores: Tony Leung (de Heroi), a suprema Gong Li e a querida de todos Ziyi Zhang. Fui saber agora que o filme é uma continuação de Days of being wild e In the mood of love. Acho que o melhor é começar pelo primeiro.

Meus Woody Allen preferidos



O novo filme de Woody Allen, Midnight in Paris, reacendeu o interesse geral pela sua obra cinematográfica. Há vários blogs publicando os seus preferidos. Aqui vai a minha lista, em ordem decrescente, estabelecida por meio de critério cem por cento subjetivo e sem resenhas porque daria um enorme trabalho analisar obra por obra. E aí, qual é a sua, caro(a) leitor(a)?

1 - Zelig
2 - Manhattan
3 - Annie Hall
4 - Radio Days
5 - A rosa púrpura do Cairo
6 - Hannah e suas irmãs
7 - Shadows and Fog
8 - Broadway Danny Rose
9 - Desconstruindo Harry
10 - Celebridades


Tenho observado que há quatro grandes grupos de opiniões sobre os filmes de Woody Allen: aqueles que gostam de tudo o que ele faz e ele representaria o máximo de complexidade que admitem ver em obras cinematográficas; os que preferem os filmes das décadas de setenta e oitenta e depois perderam o interesse no cineasta; os que preferem os filmes da década de oitenta (setenta, nem tanto), deixaram-lhe de lado por um tempo, mas gostam de sua fase europeia; os que consideram Woody Allen um artista "menor" e que só é bom quando se inspira (muito) em grandes nomes do cinema e da literatura, particularmente em Ingmar Bergman e nos clássicos russos do século XIX. Eu me incluo no terceiro (penúltimo) grupo.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Panótico vê aqui e agora (125)




71 fragmentos de uma cronologia do acaso
(1994)


Cheguei a este filme por indicação de um professor, a quem fico agradecido. Dirigido por Michael Haneke, o austríaco de A fita branca, é um filme meio James Joyce: são setenta e uma tomadas do quotidiano de quatro pessoas: um garoto romeno que foge de casa até a Hungria, depois para a Áustria e vai viver no metrô de Viena; um jovem profissional de tênis de mesa que vive sob pressão; um casal em crise; e um idoso que está sempre a falar pelo telefone com um familiar doente. Paralelamente, há cobertura televisiva sobre o Oriente Médio, na mesma linha editorial da DW TV que assistimos na transmissão paga.




Cada tomada é interrompida por um segundo, demarcando bem as mudanças de cena. Achei Viena, principalmente as repartições e edifícios públicos, idêntica às cinzentas cidades alemãs - não é porque a língua é a mesma que a paisagem urbana teria que ser similar. É um filme bem anos noventa, esta década lastimável, e a primeira ideia que vem à mente é a globalização. Se você viu o excelente Babel notará que são homólogos, embora este de Hanecke não traga uma explicação tão clara e sistematizada quanto o filme de Iñarritu. Gostei bastante.

O Panótico vê aqui e agora (124)


  Desconhecido
(2011)




Martin Harris (Liam Neeson) é um pesquisador estadunidense que vai até Berlim, juntamente com a esposa, se apresentar em um simpósio internacional. Ao pegar sozinho um táxi - dirigido pela atriz Diane Kruger, a fraulein Bridget von Hammersmark de Bastardos Inglórios - sofre um grave acidente, entra em coma por quatro dias e perde os seus documentos. Ao tentar localizar a esposa no hotel em que havia feito as suas reservas não é reconhecido pela própria mulher e há um outro Martin Harris assumindo plenamente a sua vida, inclusive com provas documentais e testemunhais.






O filme nos dá uma sensação de déja vu, mas é interessante porque envolve conspirações e você, como espectador, não é onisciente e divide a perplexidade com o protagonista. Diversão garantida sem dinheiro de volta. E quase me esquecia: Bruno Ganz (o Hitler de A queda) faz uma ponta. Eu gosto bastante desta "nova" safra de atores alemães da década passada.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Panótico vê aqui e agora (123)


Bravura Indômita
(1969)




Antes de analisar um clássico, - e dado este novo interesse pelo faroeste, coisa que parece acontecer uma vez a cada vinte anos -, devo fazer uma ressalva (ou várias): não curto o gênero western; western spaghetti para mim era um denotativo e não uma homenagem; não gosto de John Wayne e imaginava-o um universal canastrão, assim como Stallone, Norris e Schwarznegger; não sabia que faroestes serviam inclusive para metáforas filosóficas, obras sobre o limite do homem, e que tais. Dada a minha enorme ignorância sobre o tema, vou analisar de coração este filme, porque cinema para mim é antes de tudo um bom entretenimento e o Panoticum, conforme afirmei no primeiro post, tem mais a ver com o prazer que sinto em escrever do que a profundidade ou não do que digo.




Em um estado do sul dos EUA, há uns cento e trinta anos - com certeza após a Guerra de Secessão - um fazendeiro vai, acompanhado de um empregado, realizar um negócio no vizinho Texas. O empregado, alcoolizado, trai e mata o seu empregador. A filha de uns dezoito anos resolve contratar um desperado (John Wayne) para vingar a morte do pai. Outra personagem tem interesses também com Wayne, e os três rumam em direção ao possível paradeiro do criminoso.




A menina não demonstrou grande dor pela morte do pai, não se abala, e cuida da sua vingança num tom meio de moleca, tendo inclusive cabeça para propor joguinhos tipo pique-esconde com os outros dois protagonistas. A trilha sonora é de filmes "sessão da tarde". Wayne, bem, não lhe vejo carisma, talento, e ainda por cima um brucutu com a voz esganiçada. Robert Duvall e Dennis Hopper não salvam o filme. Vou ter que procurar outras obras mais significativas. 


T.V.Glotzer (27)


Happily Divorced
 (2011)



Fran Drescher é conhecida pela Nanny (1993-9), a cabelereira novaiorquina que queria casar com o rico patrão inglês viúvo e com três filhos adolescentes. Era uma minissérie novelinha, mas eu gostei bem, talvez um lado brega reprimido em mim e por mim. Fran era atraente, divertida, esperta, e a temática era socialmente liberal e democrática, bem ao meu gosto. Encerrada a série, ela protagonizou outra em que namorava jovens - Living with Fran (2005-6) -, eu vi algumas vezes mas não achei graça, o tema suzanavieira demais para o meu paladar.




Agora, ela com seus cinquenta e três anos, mais bonita que muitas com a metade de sua idade (eu sei que são plásticas e maquiagem) estreia esta série em que após um casamento de dezoito anos o marido se revela gay. Mas o marido, com a crise econômica estadunidense, não tem grana para alugar um apartamento e continua morando com a ex-exposa. Lógico que não vai dar certo e nós vamos rir muito. E fica assim: se o mulherio adorava Two and half men, uma série machista e sexista, eu posso gostar da comediante judia com a voz anasalada. Democracia não é só tolerância, é também aceitação.

domingo, 3 de julho de 2011

O Panótico vê aqui e agora (122)


Homens e deuses
(Des hommes et des dieux/2010)



"Eu vos digo: vocês são deuses, filhos do Altíssimo, todos vocês! Entretanto, vão morrer como os homens, como os príncipes, todos vocês tombarão!"

(Bíblia, Salmo 81)


-------------------------------------



Eu já cansei de ver citações bíblicas artificiosas, fora do contexto, meramente exortativas, mas ao começar a ver este filme gelei com esta que você acabou de ler.



É muito bom quando começo a assistir um filme, ler um livro, ouvir um cd e a minha intuição me diz que vem coisa boa por aí.



Argélia, 1996, um pequeno mosteiro de monges trapistas. O cultivo da terra, o relacionamento amistoso, cordial, com os vizinhos muçulmanos, padres dedicados com serenidade, humildade e dignidade a princípios, nada de teatros de fé e pedofilias. Uma harmonia ritual entre o homem, a paisagem, o próximo. Poucos filmes que sensibilizam pela fé me fizeram lembrar de um tempo em que o catolicismo me parecia uma estação segura, uma vivência, mais do que uma utopia.




Próximo da localidade, trabalhadores croatas foram assassinados pelos fundamentalistas islâmicos - a guerra civil da Argélia, entre 1991 e 2002, iniciada após um golpe militar "preventivo" contra a vitória eleitoral dos grupos fundamentalistas. O exército oferece proteção aos monges, que é recusada. O filme pode ser visto como uma propaganda tendenciosa contra o fundamentalismo islâmico, mas não é esta a questão principal: qual é a glória de matar em nome da fé?


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Nome aos bois (22)

My best loved 1971 rock albums (7)


L.A.Woman
(The Doors/1971)

A primeira vez que ouvi falar dos Doors foi há trinta anos atrás quando o casal de jornalistas José Emílio Rondeau e Ana Maria Bahiana lançaram as dez melhores bandas de rock da história em um especial da revista Som Três: eles foram cotados, mas não selecionados.




Em 1987 a revista Bizz, copiando descaradamente a imprensa musical estadunidense, "descobriu" que não teriam sido os Beatles e os Rolling Stones as grandes bandas da década de sessenta, mas na verdade seriam o Velvet Underground e os Doors (por coincidência desbancando duas bandas britânicas e colocando no lugar duas dos EUA, mas que povinho corrompido). Eu não concordei - e continuo não concordando - com esta "descoberta", mas passei a dar mais atenção ao som de Doors e V.U. que eu conhecia muito por alto.




Os Doors fizeram estrondoso sucesso (muito mais que o Velvet Underground de Lou Reed) apoiado em três fatores: a figura rimbeaudiana do cantor Jim Morrison (idolatrado pela mulherada), as letras corrosivas, e o farto uso de drogas, escândalos e repressão policial. Independentemente disto, dos cinco discos dos Doors com Morrison, este é o segundo de que mais gosto.




L.A.Woman é um disco pesado de blues, mais do que o psicodelismo dos discos anteriores da banda. Morrison está mais contido e com a voz mais grave, as melodias são mais elaboradas e amenas, é uma produção mais para cima. A minha preferida é Hyacinth House, com destaque para o teclado de Ray Manzarek, alguém que continuou vibrando com a herança dos Doors mesmo na terceira idade.


O Panótico vê aqui e agora (121)



A classe operária vai ao paraíso
(1971)




Este filme foi citado algumas vezes em salas de aula quando eu cursei História, na década de oitenta. Achava o título provocativo, mas simpático, algo típico das comédias italianas. Um professor comentou que há uma cena marcante, em que um sindicalista diz pra outro em uma reunião política: "camarada, eu vou fazer a sua auto-crítica." Fiquei com esta imagem de um filme que faria uma crítica inteligente e bem-humorada ao modus operandi  da esquerda oficial.




Mas na madrugada quase sonolenta de ontem o que vi foi um filme meio mal-feito, muito escuro, com personagens abrutalhados, sem carisma, e um clima de denuncismo e perseguições mútuas, um ambiente desagradável, pouco acolhedor. Como já tive uma amarga experiência como sindicalista o filme me deixou aborrecido. Aliás, ultimamente tenho achado qualquer convívio coletivo um tanto ameaçador. Bom, mas isto é outro papo.



Quanto ao filme, deixei-o pelo caminho e fui rever Rango, uma grande homenagem aos filmes de John Ford e Sérgio Leone (os quais também ainda não os vi).


terça-feira, 28 de junho de 2011

O Panótico vê aqui e agora (120)


Potiche
(2010)

Terças às noites no Alameda, cinema a quatro reais (tranquilão), sem fila (tranquilão), cheguei na hora (tranquilão), primeiro a entrar, escolhi o melhor lugar da sala (tranquilão) chegaram umas dez pessoas (acabou o meu sossego?).




Fui assistir Potiche com algumas reticências, e o que nos aguarda? Catherine Deneuve faz uma rica esposa de empresário, herdeira de uma fábrica de trezentos operários, mas acomodada como dona de casa enquanto o marido que não a ama dirige o estabelecimento do falecido sogro com punhos de ferro, e a trai com a secretária e prostitutas de um nightclub. A filha mimada do casal diz que a mãe é um potiche (troféu), o marido enfarta durante uma greve, e la Deneuve vai assumir o seu destino feminista, com a ajuda do deputado local e ex-amante Gerard Depardieu.



E aí eu pergunto: pô, mas que filme ruim?! Precisava ser tão ruim?! Tema ultrassurrado, anacrônico, pastiche das comédias políticas e italianas da década de setenta, filme mais novelinha barata. Personagens estereotipadas (inclusive os sindicalistas ogros), filme que precisa explicar ao espectador para quem ele deve canalizar as suas simpatias, que melequinha de produção. Quando Depardieu e Deneuve dançam em uma discoteca ao som de Bee Gees (o filme se passa em 1977) duros como pedra, sem o menor remelexo, levantei-me e fui para casa.


Poupe a sua grana. Espere passar na tv e, ainda assim, não o veja de graça, rs...

Nome aos bois (21)

O Panótico vê aqui e agora (119)


No direction home
(2005)


Antes de falar de monstros sagrados é bom fazer um disclaimer. Ouvi o nome de Bob Dylan no início da adolescência, e o som dele já era considerado do "passado" (não vai nenhum juizo de valor), um dinossauro pré-roquiano, anterior aos Beatles e Stones. Tinha para mim que ele sempre fez um som meio folk, meio blues e com músicas de "protesto" (êta rótulo besta), e o meu interesse pela música dele era basicamente o mesmo interesse que tenho por MPB: algo que reconheço o valor mas no fundo não gosto.



Mas documentário é documentário e eu adoro biografias. O que eu achei muito curioso neste filme é que mostra Bob Dylan, em uma turnê pela Inglaterra, em 1966, no auge de sua carreira, e jovens de esquerda metendo o pau no cara, chamando-o de vendido, traidor, comercial e outros insultos. Dylan dá o show com vaias intermitentes. E aí fica a questão que permeia as mais de três horas de filme: qual foi o envolvimento de Bob Dylan com a agenda de esquerda dos tenebrosos anos sessenta? Bom, você vê e tira as suas conclusões. De música mesmo, eu mantenho a mesma opinião sobre este artista: há umas duas ou três faixas de que gosto, provavelmente as mesmas preferidas do público. De resto, a voz dele, aquele violão e aquela gaitinha não são para mim.



Joan Baez e Bob Dylan. Martin Scorsese tinha que dar um tom de novelinha ao documentário.

domingo, 26 de junho de 2011

Discoteca Básica (38)



Automat
(1978)

Este disco tocou bem em terras brasileiras por conta de que a faixa Droid tocou em um telejornal noturno. Composto pela dupla italiana Romano Musumarra e Claudio Gizzi, é mais uma das muitas produções italianas dos anos setenta que inspiravam-se claramente em criações do norte da Europa - além de ser um disco encomendado, ao que parece -. Aqui a influência clara é do francês Jean Michel Jarre e do grupo alemão Tangerine Dream. É um som eletrônico para o qual muitos torciam o nariz, porque as melodias são bem padronizadas, quase como aulas básicas de teclados e sintetizadores, bem assimiláveis pelo ouvido mediano.

No entanto, não o ouvia desde então, há mais de trinta anos. Deu-me saudade e relembrá-lo trouxe memórias lá no fundo guardadas. O prazer indescritível de comprar um disco e ouvi-lo à exaustão. O tema é bem apelativo, e há um texto piegas na contracapa, escrito pelo pessoal da gravadora. Não sei se a dupla fez mais alguma coisa. Automat preparou o caminho para que eu conhecesse o Kraftwerk. Automat ainda é um disco muito bom, melhor do que noventa por cento do que os jovens ouvem hoje em dia.