Juiz de Fora

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O Panótico vê aqui e agora (251)


OSS 117 Rio não responde mais
(2009)


OSS 117 é um agente secreto francês que vai ao Rio adquirir uma lista, de um ex-oficial nazista, com o nome dos colaboradores franceses à ocupação alemã durante a segunda guerra. OSS 117 é um agente trapalhão (tipo o agente 86), mulherengo, e muito preconceituoso, disparando o tempo todo contra mulheres, judeus, chineses, etc.



Dirigido por Michel Hazanavicious e estrelado por Jean Dujardin, eu não teria conhecido este filme, - na verdade uma sequência de OSS 117 Cairo: nest of spies (2006),- se não fosse o sucesso de O artista. Li nos blogs sobre Paris que OSS 117 fez grande sucesso na França. É uma paródia muito bem feita dos filmes de 007. Passado em 1967, em boa parte no Rio de Janeiro, há uma combinação de reconstituição histórica fiel com bobagens típicas. Assin, há carros reais que circulavam no Brasil, como fuscas e aerowillys, com carros americanos jamais vendidos aqui, mulheres retas e peitudas como as estadunidenses, biquinis mais parecidos com fraldas, música mais caribenha do que carnavalesca, a coadjuvante Carlota é chamada de Carlotá, dado que os franceses põem a tônica na última sílaba, e todo mundo no Rio sabe falar francês, assim como todos falam inglês em qualquer lugar que se vá nos congêneros de 007.



Ao contrário do que imaginava, realmente houve, na literatura e no cinema, uma série OSS 117, com dezenas de obras sobre um agente secreto estadunidense de ascendência francesa, escrita por Jean Bruce no final da década de quarenta e antecipando-se ao 007 de Ian Fleming.
Como filme, no entanto, é apenas uma comédia divertida, não tem a mesma qualidade de O artista.


terça-feira, 22 de maio de 2012

This is the end, beautiful friend.


House (2004-12)

Eu nem acredito que a série House chegou ao fim. Acompanhei-a religiosamente durante sete anos. Fique aqui com a belíssima música-tema, na voz de Elizabeth Fraser, do Cocteau Twins.


O Panótico vê aqui e agora (250)


 A culpa é de Voltaire
(2000)


Paris, 1999. Jallel é um imigrante ilegal tunisiano que vai para Paris tentar faturar uma grana e ajudar a família em casa. Instruído por outros imigrantes magrebinos como ele, Jallel preenche uma requisição de asilo político como argelino, e justifica a sua escolha pela França com base em princípios iluministas. Os amigos acreditam que os franceses seriam suscetíveis ao sentimento de culpa pela repressão à revolução argelina (1959-61) e, simultaneamente, ficariam envaidecidos pelo elogio à pátria dos direitos humanos, daí o título.



O funcionário da imigração claramente não acredita em Jallel, mas segue a legislação e a política em vigor, e concede um visto provisório de trabalho para o tunisiano por três meses. Jallel sobrevive como camelô de abacates e flores, trabalhando irregularmente nas estações de metrô e pelas ruas de Paris. Preocupado com a renovação deste visto, Jallel tenta se casar com uma francesa filha de tunisianos (Nassira) e mantém laços de amizade com outros imigrantes e subempregados como ele. Mais adiante, uma jovem com transtornos mentais (Lucie) se aproximará dele.

É o terceiro filme que assisto com o ator francês Sami Bouajilla, de quem já vi dois ótimos trabalhos dirigidos pelo argelino Rachid Bouchareb: Destinos Cruzados (2009) e Fora da Lei (2010), já resenhados aqui. O tema do imigrante não é tratado como mera questão política, mas abordado no contexto das relações que se estabelecem entre as pessoas e a brutalidade das rupturas. Os imigrantes não são santos e nem fundamentalistas. Usam as brechas do falho sistema de controle de imigração francês para poder se estabelecer. Somos levados a nos sensibilizar por pessoas que têm que tentar se virar com empregos muito ruins, e ainda assim se agarram a eles porque no seu país de origem a situação é pior.



Muito interessante também a abordagem da cidade de Paris, pelo quotidiano das áreas menos nobres ou turísticas. Em um diálogo sintomático, um amigo de Jallel diz que quer voltar para sua Brest natal (na Bretanha) cansado do clima  de Paris (como se lá fosse diferente) e da indifernça das parisienses para com ele. Jallel, por sua vez, defende a cidade, por achá-la bonita, cheia de novidades e de pessoas diferentes. Há uma outra cena em que Jallel tem uma pequena dificuldade em mover a maçaneta do vagão de metrô, e é assim mesmo que acontece com quem a utiliza pela primeira vez, rs...

É o primeiro filme do tunisiano Abdellatif Kechiche (n.1960), premiado por A vênus negra (2010). Vou procurar pelos seus filmes posteriores.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Seleção oficial de Cannes

Like someone in love, de Abbas Kiarostami

Dos diretores abaixo eu gosto de Michael Haneke, Abbas Kiarostami, Ken Loach, Alain Resnais, e Thomas Virtenberg. Os demais eu não os conheço ou apenas respeito. O site traz sinopses dos filmes (em português).

Fonte: http://www.festival-cannes.com/pt/archives/inCompetition.html

O Panótico vê aqui e agora (249)



This is England
(2006)



Alguma cidade bocejante do norte inglês, 1983. Shaun Field é um garoto de doze anos vítima de bullying porque a sua mãe sub-hippie não leu jornal por volta de 1976 e não ficou sabendo que a calça boca de sino foi sepultada pelo movimento punk. Órfão de pai devido à guerra das Falklands (eu entendo que neste caso específico o Reino Unido tem mais razão política, jurídica e histórica do que a Argentina, mas isto é outro papo) o menino reage com a linguagem que lhe cabe conhecer, de uma maneira até corajosa já que é pequeno diante dos odiáveis valentões de escola. Topa por acaso com um grupo skinhead light, uns adolescentes e jovens meio sem rumo, sem perspectivas, o que não é culpa deles, e que se viram com pequenos delitos, álcool, drogas, e sexo. Shaun é adotado pelo líder Woody, uma espécie de primo justo da galera.


Fiquei com receio de ser um filme datado sobre um tema recorrente. Mas entra em cena um ex-presidiário: Combo, - a quem Woody deve o fato de não ter ido parar na cadeia-, e meio que assume a liderança de parte do grupo, Shaun incluído, com uma linha mais política, mais próxima do skinhead mundialmente conhecido: iletrado, violento, chauvinista, racista e manipulado pela extrema-direita do National Front com aquela linha de que "nos tomaram o Reino Unido enquanto somos mais de três milhões de desempregados". Por ser mais velho, Combo assume a paternidade do moleque e o leva precocemente para um pálido refúgio.

Gostei do filme à medida que evoluiu. Não é o populismo de que vivo reclamando (e vem mais por aí pelo que estou lendo sobre Cannes), aquela estória de que o autor adotou a perspectiva dos de "baixo", a de que a violência dos explorados é autoexplicativa, este irresponsável discurso tão amado pelos desconstrutivistas. Aqui os skinheads são tratados como vítimas, não são meras caricaturas de nazistas, até a sua ignorância têm atenuantes, mas em nenhum momento o filme lhes dá razão.

Chamou-me também a atenção o talento do garoto Thomas Turgoose, as falas parecem vir do coração, é o perfeito estado de transição entre a infância e a adolescência, e de Stephen Graham (Combo) de quem conhecia apenas o papel secundário de Tommy, um acovardado criminoso de Snatch, porcos e diamantes (2000).

O diretor Shane Meadows me é desconhecido, mas fiquei interessado em Dead Man's shoes, o seu filme anterior. Li que está envolvido em algum projeto televisivo de maior alcance também sobre a situação político-social inglesa.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Panótico (finalmente) vê aqui e agora (248)



Psicose
(1960)



Lá nos idos de mil e novecentos  e setenta e seis eu assisti um Globo Repórter com Sérgio Chapelin, em uma sexta-feira, dedicado ao recém-falecido mestre britânico do cinema Alfred Hitchcock, e a imagem do mocinho morto pelo bandido do filme Psicose ficou na minha mente, a famosa cena da escada em que Norman Bates mata o detetive particular. Criança, pensei: que filme ruim, como pode o  mocinho morrer no final? Depois disto, claro, já vi a outra cena famosa, - a da mocinha morta no chuveiro - em muitas ocasiões, e pensei: não vou assistir este filme apenas para cumprir um dever de casa, como obrigação de cinéfilo que se preze.

Mas, após assistir O guia pervertido do cinema, a análise psicanalítica da obra por Slavoj Zizek me despertou a curiosidade por ver este clássico, já exibido na tv dezenas de vezes. Não vou ficar aqui comentando o filme como marco do cinema, todo mundo sabe disto, mas apenas algumas observações sobre o que me chamou a atenção:




a) gostei do tom realista das personagens e da maioria das falas, guarda algo do cinema noir.

b) Anthony Perkins não me pareceu um canastrão como normalmente se diz, mas um rosto versátil.

c) Acho um barato a mãe de Howard Holowitz (The big band theory) ser uma paródia da sra.Bates.

d) A captura de Bates poderia ser mais complexa, mais desenvolvida, mais espetacular, neste sentido os filmes de suspense posteriores me parecem mais impactantes.

e) a casa estilo família Adams é bem legal.

f) a fala do psiquiatra é cheia de poses e caras, como alguém que exerce uma profissão não muito levada a sério - pelo ser humano médio da época -, necessitando de dramatizar para adquirir autoridade.

g) Comparativamente, de Hitchcock, gostei mais de Janela Indiscreta, Vertigo, Festim Diabólico, Os Pássaros e Intriga Internacional.

h) Psicose 2?  Sem chance.


terça-feira, 15 de maio de 2012

O Panótico vê aqui e agora (247)



Mickybo e eu
(2004)


Belfast, 1970. Mickybo é um garoto católico, oito anos, filho caçula de um pai omisso e de uma mãe dona de casa que mantém o bom humor enquanto cuida de seus seis filhos. Mickybo é o autêntico menino de rua proletário, às voltas com encrencas e vítima da ameaça de outros garotos como ele. Jonjo mora do outro lado da ponte que separa católicos e anglicanos, nove anos de idade, e filho único de uma família de classe média. Incidentalmente, Jonjo e Mickybo se aliam, vão ao cinema assistir Butch Cassisdy & Sundance Kid, com Paul Newman e Robert Redford, e o peralta garoto ruivo propõe ao mais velho e comportado que formem uma gang. Mickybo vai ensinar a Jonjo a furtar e outras traquinagens.



Este é um filme muito charmoso. As aventuras dos dois garotos e a esperteza do pobre Mickey Boyle ganham o espectador. Tudo funciona bem: os atores, a trilha sonora, o enredo, a narrativa, o sotaque irlandês, o contexto político, a inserção constante do universo de Dois homens e um destino, e principalmente as fantasias do universo infantil. Fiquei com a impressão de já ter visto este tipo de filme muitas vezes, mas sempre em obras estadunidenses. Mas não importa, é diversão garantida.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Panótico vê aqui e agora (246)


O guia pervertido do cinema
(2006)



"Nossos desejos não são naturais. Nós somos ensinados como desejar. O cinema é a mais pervertida das artes. Ele não nos dá o que desejamos. Ele te diz como desejar" (Slavoj Zizek)

Slavoj Zizek é um filósofo e psicanalista esloveno. Já conhecia a peça rara de forte sotaque por meio de um documentário sobre a banda eslovena Laibach (1992), quando ele analisou a importância do grupo como arte antitotalitária, ainda que de um modo um pouco caricato. Mas o homem é brilhante. Neste guia pervetido do cinema, ele faz uma análise psicanalítica de como o cinema elabora os nossos sonhos. Não tenho formação em Psicologia, então opto por reproduzir as suas falas em diversos clássicos do cinema. Daqui para a frente vai ser impossível eu ver filmes da mesma maneira. Diferentemente dos dois documentários de Martin Scorsese, já resenhados aqui, o foco não é tanto a narrativa filmográfica e a evolução do cinema como indústria, mas como o cinema nos manipula. Sensacional. Para cada citação há uma cena que demonstra o raciocínio exposado.


Em Possessed (1931), uma moça pobre e provinciana se aproxima de um trem em marcha lenta e vê um casal dançando, um cozinheiro preparando um jantar, garçons servindo a mesa, uma moça se embelezando: "os sonhos do espectador são elevados a um nível mágico. Isto é cinema na sua mais pura forma".

Sobre Matrix (1999): "Se algo se torna muito traumático, muito violento, ou até muito cheio de gozo, as coordenadas de nossa realidade se estremecem, precisamos transformar isto em ficção".


Em Pássaros (1963), o protagonista está dividido entre a namorada e a mãe possessiva. o ataque dos pássaros representa o "Superego materno, a figura da mãe decidida a evitar a relação sexual. Os pássaros são energia incestuosa em estado puro".


Em Psicose (1960): "Podemos entender este filme em três níveis: primeiro andar, térreo e porão. Estes espaços reproduzem os três níveis da subjetividade humana. O térreo é o Ego, o andar de cima é o Superego (a mãe morta), e a despensa (porão) é o Id, o reservatório das pulsões ilícitas."

Norman transfere o cadáver da mãe do Supergo para o Id. Freud achava que havia uma estreita conexão entre o Superego e o Id. A mãe de Norman se recusa a ser transferida para a despensa (fruit cellar) e sai com esta: "Você acha que sou suculenta"?  Segundo Zizek, o Superego obscenamente estabelece padrões impossíveis de serem cumpridos gerando culpa no indivíduo.



Em Diabo a quatro (1933): "Groucho, com sua hiperatividade nervosa, é o Superego. Chico, racionalista e egoísta, é o Ego. Harpo, o mudo (as pulsões são silenciosas) é o Id. Harpo é o mais infantil, ele quer o tempo todo brincar, mas ao mesmo tempo é o mais agressivo. Esta combinação de corrupção absoluta e inocência é o que o Id é."



Em O testamento de Doutor Mabuse (Fritz Lang, 1933), O exorcista (1973) e Alien (Ridley Scott, 1979): "Há um desequilíbrio entre nossa energia psíquica, chamada de libido por Freud, essa energia imortal inesgotável, e a pobre realidade, finita e mortal dos nossos corpos. (...) A lição que devemos aprender, e os filmes tentam evitar, é que nós mesmos somos os alienígenas controlando nossos corpos. A humanidade significa que alienígenas controlam nossos corpos animais."


Em O grande ditador (1940) "Ninguém estava mais consciente da nossa voz não como meio sublime, etéreo, de expressar a profundidade da subjetividade humana, mas a voz humana como um invasor estrangeiro do que Chaplin. Chaplin atua com dois personagens: o barbeiro judeu, a figura do vagabundo que representa o cinema mudo. Os personagens do cinema mudo são basicamente como os de desenho animado, eles não conhecem a sexualidade, eles não conhecem a morte, ignoram o sofrimento, eles simplesmente vivem as suas pulsões orais egoístas. O mal é ingênuo, eles são egoístas, querem apenas sobrepujar os outros, não há propriamente culpa. O que conseguimos com o som é interioridade, profundidade, culpa."

Bem, o meu superego me manda ficar mais algumas horas resenhando o filme, mas o meu Id me diz que está tarde e ainda quero ver o restante (mais duas horas) destas análises suculentas...

terça-feira, 8 de maio de 2012

O Panótico vê aqui e agora (245)



Sonata de Tóquio
(2008)


Sasaki é um administrador de empresas de meia-idade que perde o seu emprego em uma corporação japonesa que está substituindo mão-de-obra qualificada nacional por mão-de-obra qualificada chinesa e barata. Imediatamente começa a procurar por novo emprego, acreditando poder encontrar um posto de trabalho equivalente. Sasaki não conta à família que está desempregado, e passa o dia todo fora de casa para que a esposa não desconfie. Paralelamente ao forte sentimento de humilhação e vergonha, vai se tornando severo com os familiares.


A senhora Sasaki é uma doce dona de casa e mãe dedicada, com dois filhos: o mais velho, com dezessete anos, que está subempregado e meio sem rumo na vida e um adolescente que quer estudar piano e se sente só na família. O senhor Sasaki considera o fato do filho caçula querer ser músico um capricho. Gradativamente, cada membro dos Sasaki prefere esconder os seus temores e desejos no seu próprio mundinho.


Gostei muito do filme, por duas razões. Como sempre, locações urbanas me agradam, Tóquio parece uma São Paulo mais bonita, com sua nítida sinalização nas vias públicas, seus grandes espaços, seus bairros arborizados com casinhas sem passeio. Aqui há a dupla combinação da crise econômica japonesa com a repressão familiar e social, é impressionante que as pessoas tratem os desempregados como responsáveis pelo próprio infortúnio. Para impedir que sua esposa saiba de seu desemprego de três meses, um colega de Sasaki finge que é um executivo solicitado que atende frequentes chamados de celulares a negócios. A família está prestes a explodir de tanta infelicidade.


O Panótico vê aqui e agora (244)


Os românticos anônimos
(2010)




Véronique Delange é uma moça tímida, que participa de um grupo de "emotivos anônimos". Apaixonada por chocolate, a jovem tem talento para chocolateira mas não consegue lidar com a notoriedade do próprio talento. É contratada por um chocolatier e passa a trabalhar anonimamente. Após o falecimento de seu patrão, obtém uma vaga em uma chocolaterie em estado pré-falimentar. O seu novo chefe, Jean-René, faz terapia e apresenta características semelhantes as de Véronique.




Este é mais um filme que se inspira em filmes inocentes do cinema estadunidense e francês dos anos sessenta, digo, do cinema romântico, pois esta década foi bem explosiva. Dado que a timidez hoje em dia é considerada pela moral sexista como quase patológica, as duas personagens minoritárias, incapazes, a princípio, de manter contato físico e relacionamento perene, são abordadas como casos psicanalíticos, mas o filme não entra nessas de transtorno disto ou daquilo, síndrome disto ou daquilo. Os atores, desconhecidos para mim, encaixam como uma luva nos papéis.



O filme é um atrativo visual, além de tudo, pois as degustações de chocolate e as maisons de chocolat dão água na boca. Soma-se a isto os hotéis, os restaurantes, e o campo francês. Filme apolítico, no sentido de que as relações sociais estão amortecidas peloconvívio razoável entre os empregados e dono da pequena empresa, é filme bem sessão da tarde, sem ofender a inteligência do espectador. Foi um bom antídoto para Os vingadores.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Panótico não vê aqui e agora (243)


Os vingadores
(2012)


Esta vai ser a "resenha" mais fácil que eu já fiz de um filme: base científica, nenhuma; diálogos, idiotas; excesso de efeitos especiais; caras e bocas de astros; nada mais. A única coisa que valeu foi ver o trailer de Prometheus, de Ridley Scott, que não me empolgou muito, por sinal. Saí no meio do filme.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Panótico vê aqui e agora (242)


Hunger
(2008)



Primeira parte: Irlanda do Norte, 1976-81. Um agente penitenciário britânico sai de casa para o trabalho, verifica se há uma bomba instalada no chassi do seu carro, o liga e sente alívio por um segundo. Cena seguinte: Penitenciária Maze, ao sul de Belfast. Seguinte: Terroristas sentenciados do IRA se recusam a usar uniformes de presos comuns, a tomar banho e inundam as suas celas de urina e excrementos. Seguinte: Voz de Margareth Thatcher discursando, basicamente, que terroristas são criminosos, e não merecem tratamento especial como sentenciados políticos. E: dois terroristas recebem mensagens partidárias durante a visita de suas namoradas ou esposas. Por fim: os sentenciados são removidos de suas celas nojentas, têm os cabelos cortados e são lavados, tudo à força, óbvio. Bobby Sands começa a destruir a sua cela, acompanhado na ação pelos demais presos das outras celas. 

Segunda parte: Um padre militante debate com Bobby Sands, por mais de vinte minutos, os rumos que este está tomando.

Terceira parte: Agonia e morte de Sands.




Sobre como conheci Bobby Sands: Em 1981 eu tinha dezesseis anos, ainda era católico e tinha uma vaga noção do que era o IRA. Quando soube que jovens católicos estavam fazendo uma greve de fome contra o repugnante governo de Margareth Thatcher, a coisa me pareceu algo de heróis abnegados lutando por sua pátria católica contra os ingleses imperialistas protestantes. Mas não era bem assim... Pouco tempo depois, aqui no Brasil, meia dúzia de estudantes da UFJF entraram em greve de fome (por quantas horas, mesmo?!) devido a um aumento da refeição do R.U. Eu pensei: é, não é bem assim. Bobby Sands sobreviveu por espantosos 66 dias, muito acima do imaginável, talvez o discurso dele quisesse morrer, mas o corpo lutou muito para ficar vivo.

Sobre o filme: Quando eu vi Shame não atentei para o nome do diretor. Mas tenho visto elogios rasgados a Steve McQueen (n. 1969), e pensei se tratar de algum diretor com vasta e consagrada filmografia, e, eu, mais uma vez, por fora das coisas. Pesquisando, verifiquei este Hunger, premiado e respeitado em trinta países. É um filmaço, em dois grandes aspectos: a fotografia, o tratamento da percepção visual, o uso do som; e a extração de emoções, o impacto das situações, é como se a humanidade explodisse para fora da pele de cada um, o alargamento de limites. É uma obra marcante. Mas há a adoção de algo inaceitável: Bobby Sands é tratado como uma vítima, um mártir, um homem de princípios. Eu perguntaria: foi sentenciado injustamente? Implicaram com ele, somente por ser irlandês e católico? O Reino Unido era um estado totalitário? O crime por ele cometido foi de menor potencial ofensivo? Por que o diretor silencia sobre o passado do herói?

A melhor cena do filme na minha opinião é o debate entre o padre e Sands, uma tour de force para a memória e talento dos atores Michael Fassbender e Liam Cunningham. Mas a palavra final vitoriosa é de Sands, a preferência do diretor é clara.




Sobre heróis: Em 1989, na turnê do U2 nos EUA, Bono Vox fez esta afirmativa em um show, exibido em Rattle and Hum: "muitos falam sobre a glória de morrer pela revolução, mas por que ninguém fala da glória de matar pela revolução?". Achei o discurso conveniente para a plateia estadunidense, mas lhe dei razão. Esta semana, por coincidência, falei aos alunos de uma turma joinha, com a qual conversava humoradamente: "Gente, todo terrorista é um louco". Eles ficaram meio que assustados, como se o terrorista fosse eu. Assim como a personagem de Bruno Ganz em Complexo Baader Meinhof, assim como a personagem de Yves Montand em I comme Icare, eu fico um tanto frustrado com o fato de que parte substancial da humanidade tenha simpatia pela ação violenta.

Sobre jovens que querem morrer por ideais: Fico abismado e me perguntando porque a juventude universitária de hoje, com tanta educação, tanta mesada, tanta festa, tanta droga, tanta balada, tanta moda, tanta música, tanto cinema, tanta informática, tanto celular, facebook, msn, instagram, ipod, ipad, iphone, ai, meu Deus, fique escrevendo textos sobre caras que "morreram por seus ideais", não é melhor viver por eles? Será que esta meninada tão burguesa e mimada encararia uma empreitada destas, quantas horas suportariam sem o seu sanduíche preferido, em uma prisão deprimente, exercitando a própria loucura? Ah, como diz uma amiga minha: "Poupem-me".


terça-feira, 1 de maio de 2012

O Panótico vê aqui e agora (241)




Nota de rodapé
(2011)


Eliezer Shkolnik é um filólogo de Jerusalém, nascido nos anos trinta, filho de imigrantes. Dedicou toda a sua vida profissional a reconstituir o Talmud original, o mais próximo possível, a partir de manuscritos europeus da Renascença. Um seu colega professor universitário obtém, por acaso, a prova do equívoco da linha de pesquisa de Eliezer, não lhe comunica, e ganha notoriedade e poder institucional confirmando a veracidade da Bíblia ensinada em Israel, contrariamente ao que suspeitava Eliezer, homem rígido, de ciência, de princípios. Não é preciso chamar a atenção de que a Bíblia dá forte legitimidade ao discurso de poder do Estado de Israel, diante de si e dos outros. Provar a exatidão ou não dos textos hebraicos serviria de maior ou menor apoio às políticas de Israel.


Uriel Shkolnik é o filho do protagonista, na infância sentia vergonha pelo fato do pai ser um filólogo, e mais ainda quando o genitor insistia em ser tratado por professor, mesmo sem dar aulas. Mas, seguiu o caminho do pai. Seguiu não, Uriel pôs a pesquisa a serviço da vaidade, da autopromoção, das celebridades, dos holofotes, como fazem boa parte dos professores universitários em todo o planeta, ainda que o façam com conduta profissional e competência técnica. O ostracismo do pai é confrontado com o sucesso do filho.

Gostei demais do filme. Apesar de israelense, a obra não tem como centro a relação com os palestinos, a questão lhe é incidente, e aparece mais devido ao aparato de segurança. A relação entre pai e filho, entre princípios e conveniências, entre feijão e sonho, foi tratada com humor inteligente. A narrativa é ágil, mas dando tempo para sentir as personagens e as situações.

My best loved 1982 rock albums (5)



Nunsexmonkrock
(Nina Hagen)

Nina Hagen apareceu para mim do nada, instantaneamente, com o lançamento nacional de Nunsexmonkrock, nos idos de 1982. Foi de um grande impacto, e apesar do visual extremado, eu gostei de cara, porque havia muito o que ouvir. De baixo de algo caricatural, havia uma boa banda e uma senhora cantora, fazendo o rock da sacerdotisa sexy.



Ao contrário do que consta no Wikipedia, este é o terceiro disco de Nina Hagen. Os anteriores são o primoroso Nina Hagen Band (é titulo, de 1979) e o razoável Unbenhagen (1981). Antiworld já vem avisando que a dissidente da ex-Alemanha Oriental está pronta para dar o recado. Quem não gostou da gritaria parou por aí, e foi divertido ver a reação das pessoas ouvindo pela primeira vez o disco. Smack Jack  é a faixa pop do álbum, tocou razoavelmente nas tvs e radios fm, mesmo no Brasil. Taitschi-Tarot, uma caricatura nipônica é so divertida. Iki Maska é bem repetitiva, mas eu gostava bem. Em Future is now Nina Hagen fala sobre suas convicções hippie-intergalácticas, e começa cantando: "1968 is over". É uma percepção clara do significado político do contexto.

Muita gente duvidava da seriedade da moça, mas eu acho que o seu trabalho era uma leitura inteligente do mundo e da cultura pop do início dos anos oitenta. Quando ela veio para o Rock'n'Rio ('85) ela caiu no gosto ridículo da Globo, que a vendeu como uma palhaça, uma espécie de Elke Maravilha, Baby Consuelo ou personagem de Chico Anísio. Fiquei meio decepcionado porque ela deu bastante corda para tanto, mas mesmo assim fui nos seus shows por duas vezes, sendo que o segundo, no final do ano, em Belo Horizonte, me agradou de montão, com um repertório feito para fãs.



My best loved 1972 rock albums (5)



Trilogy
(Emerson, Lake & Palmer)

Em 1976 eu não estava ainda atento para o rock e gostava de discos de novelas e coletâneas, como a maioria dos garotos da época. Na Globo, à tarde, passava um programa sobre rock, cujo nome não me recordo, e mudando de canal deu para ver três caminhões pela estrada com os nomes "Emerson", "Lake", "Palmer" em cada um deles. Era a banda em tourné pelos EUA e cada veículo levava os instrumentos musicais de cada músico. Em seguida, aparece a banda tocando Fanfare for a Common Man,  uma música toda instrumental, pegajosa, de fácil assimilação e o grupo ficou na minha mente. Em 1978 vi a capa de Tarkus na casa de um amigo, e aquele tatu-tanque me impressionou.


Trilogy é o segundo disco do trio inglês formado por Keith Emerson (teclados), Greg Lake (baixo, guitarra e voz) e Carl Palmer (bateria e percussão). Este grupo dominado pelo tecladista, que recusou o pedido de Jimi Hendrix para integrar a banda, era dado à megalomania e tinha notório tino comercial. Usava da música clássica de uma forma bem descarada, mas o som era de alta qualidade. Eu os colocaria no mesmo patamar de grupos como Genesis, Yes e King Crimson, mas um degrau abaixo.

The endless enigma é uma faixa que tem um clima bem interessante, e aqui o centro da atenção são os sintetizadores Moog. A faixa tem um peso meio épico, lembra trilhas de filmes históricos. From the beggining é a típica musiquinha romântica, bem ao gosto do cantor e baixista Greg Lake. Nao sei se era uma concessão de Keith Emerson para manter Greg Lake na banda, ou uma combinação de ambos para alavancar as vendas. A mulherada adorava o Greg Lake e ia nos shows somente por causa dele. The sheriff dispensa comentários e a seguir vem Hoedown, a faixa instrumental que fazia a minha alegria, com alta performance de Keith Emerson, apesar do sonzinho meio cowboy. Trilogy é bem composta, é bonita, mas não muito. Eu achava Living Sin curiosa, por causa do falsete grave de Greg Lake nos versos iniciais, mas ainda sim é uma boa música. Abaddon's Bolero é a faixa de "qualidade" de Keith Emerson, a que lhe dava maior credibilidade como músico de progressivo. Trilogy é o preferido de muitos fãs da banda, mas eu sou bem mais Brain Salad Surgery (1975)



O Panótico vê aqui e agora (240)


Um retrato de Woody Allen
(1997)



Woody Allen é clarinetista de longa data e fã do jazz de New Orleans, do início do século passado, fato conhecido de todos e pelas músicas que sempre abrem os seus filmes. Aqui ele faz uma turnê em algumas cidades europeias (Paris, Madri, Roma, Veneza, Bolonha, Milão, Turim, Genebra e Viena) com um septeto (clarineta, piston, saxofone, banjo, piano, contrabaixo e bateria) de um amigo e outros músicos contratados.



O documentário mais se parece com um filme, e apesar do estilo naturalista, a gente vê que Woody Allen está mais uma vez interpretando a si mesmo. É legal, no entanto, ver as locações nas belas cidades, o modo simpático com que ele lida com os seus fãs (inclusive aquelas donas tipo: eu gostei muito de tal filme!), a aversão a autoridades e figurões, e as comparações que faz entre Nova York e a Europa ("Paris não tem a emoção de Nova York, mas é mais bonita")

O som não é lá estas coisas, e Woody Allen não parece ser um grande performista, a plateia, no entanto, foi lá para vê-lo, claro.



A melhor cena é o de sua família, no retorno a Nova York: embora a sua mãe, mais uma vez, diga que o cineasta tenha inventado ou exagerado as histórias de seus filmes, os seus pais parecem se enquadrar bem em seus estereótipos freudianos, ao afirmarem coisas como: "Eu preferia que ele fosse farmacêutico", ou "Eu queria que você tivesse se casado com uma boa moça judia, e não com uma chinesa, como o seu irmão fez", isto na frente de Soon Yi Previn, que, por sinal, é coreana. Hilário, gostei bastante.