No progresso da divisão do trabalho, o emprego da maioria dos que vivem do trabalho, ou seja, a grande massa da população, fica confinado a algumas poucas operações simples, frequentemente uma ou duas. Mas o intelecto da maior parte dos homens é necessariamente formado por meio de seu emprego comum. O homem cuja vida se consome na execução de poucas operações simples, cujos efeitos também são talvez quase sempre os mesmos, não tem a chance de exercer o seu intelecto ou exercitar sua inventividade na descoberta de expedientes para remover dificuldades que nunca ocorrem. Ele naturalmente perde, portanto, o hábito de tal exercício, e em geral se torna tão obtuso e ignorante quanto uma criatura humana pode se tornar.
Há muitas falas de filmes - ou mesmo cenas inteiras - que ficam para sempre na nossa memória. Andy Dufresne (Tim Robbins) é sentenciado injustamente a prisão perpétua, e o narrador Elias Redding (Morgan Freeman) já nos antecipa que não era um prisioneiro comum. Cai nas graças do diretor do presídio (Bob Gunton) que passa a lucrar com a sua mão-de-obra capaz e gratuita. Em dado momento há um conflito de interesses entre o protagonista e o corrupto manda-chuva, e o primeiro lança o petardo acima. Ser obtuso aqui, ou em qualquer contexto, não diz respeito à ausência ou o baixo nível de habilidades e competências do indivíduo, mas à enorme preguiça mental que assola um bom número de seres humanos. Uma possível explicação para tamanho comodismo vem no próximo post.
Milo Manara é um desenhista italiano conhecido dos leitores de Heavy Metal. Os seus desenhos tem forte conteúdo erótico, mas as mulheres não são as heroínas musculosas dos quadrinhos estadunidenses hegemônicos de vinte anos para cá. Ganhou reconhecimento e notoriedade com a série Click, em meados dos anos oitenta. Está no Brasil, a convite do Rio Comicon (09 a 14/11), feira internacional de quadrinhos na estação ferroviária de Leopoldina. O cartaz oficial é de sua autoria. Boa parte de seus livros já vêm sendo publicados no Brasil há duas décadas. O seu estilo é bem fácil de identificar.
Marjane Satrapi é autora de Persépolis, série em quadrinhos que foi levada às telas como desenho animado, com extrema fidelidade, o que é mais fácil, por óbvio.
A iraniana que vive em auto-exílio na França (não dá para culpá-la) retornou aos quadrinhos com estes Bordados e Frango com ameixas. Bordados é centrado em uma conversa de comadres sobre casamento e relacionamentos. Marjane Satrapi é feminista mas não trata as mulheres com condescendência e nem com populismo: aqui as artimanhas das progestas vem à tona quando se trata de amarrar os corações e bolsos testosterônicos. Muito divertido para ambos os cinco ou seis sexos da modernidade.
Frango com ameixas é verídico, ao que tudo indica, sobre a depressão e morte de Nasser Ali Khan, tio-avô de Marjane e músico de certo reconhecimento no Irã dos anos cinquenta, já no reinado do xá Rehza Pahlevi. É sério, triste, tragicômico às vezes, e valeu muito por eu ter conhecido a poesia de Khayyám.
Sci-fi lullabies é um cd duplo do Suede, banda inglesa de Brett Anderson, mais uma que está sumida mas vai retornar nos próximos meses. Contém os lados B dos singles dos três primeiros álbuns do Suede: o homônimo (1993), Dog Man Star (1994) e Coming Up (1996). É incrivelmente constante, não tem altos e baixos, parecem uns caras maduros cantando para.... caras maduros. Muito bom de se ouvir enquanto escrevemos no computador e aguardamos o momento de garantir o chop suey nosso de cada dia. Se ainda não conhece o som da banda dê uma sacada nos vídeos abaixo.
Este é o primeiro filme romeno a que assisto. A Romênia foi a antiga província romana da Dácia, conquistada pelo imperador Adriano. O idioma romeno é latino, assim como o português, o italiano, o espanhol e o francês. Os vocábulos assemelham-se muito com o português e o italiano, mas a entonação, o timbre, a forma de expressar é bem próxima das línguas eslavas, do russo em particular. Após a queda do famigerado Nicolau Ceausescu (1967-89), o estalinista ditador, a Romênia pôde se ocidentalizar, mas as construções coletivas típicas do leste europeu são vistas pelas ruas de uma pequena cidade onde o filme é locado.
O protagonista Christi é um jovem investigador de polícia incumbido de lidar com o tráfico de haxixe em determinado bairro. As investigações não rendem grande coisa, e as autoridades querem prender um estudante para servir de exemplo e mostrar serviço. Christi é contrário, por entender que na Europa ninguém reprime mais o simples consumo. A maior parte do filme são lentas, burocráticas e monótonas diligências. O interessante são as ruas da pequena localidade, lembra muito as cidades altiplanas de Minas e Rio de Janeiro. O trabalho policial não tem nada da garra dos típicos filmes do gênero. O ponto alto do filme é uma descompostura do chefe de polícia em cima do renitente Christi, sobre o que é lei moral e lei positiva. Vale a pena assisti-lo? Não perde e não ganha. Premiado em Cannes.
Um colégio e internato inglês para rapazes, durante a década de sessenta, possui uma série de regras de conduta que conferem a um grupo de veteranos a oportunidade de exercer sadismo e perversidades para com os calouros, tudo sob isto sob a cumplicidade do corpo docente. A personagem de Malcolm MacDowell, antes de Laranja Mecânica, assume uma postura levemente desafiadora diante da gangue de seniores. Você fica esperando que o filme progrida e nada. A rebelião vem tardiamente e um tanto caricata. Um bom tema desperdiçado, e que foi melhor desenvolvido no sueco Evil - Raízes do Mal (2003) . Lançado pela Lume Filmes, uma boa referência em matéria de filmes clássicos, decepciona, no entanto, pelo roteiro morno. Premiado em Cannes e outros.
A primeira vez que eu li sobre os punks foi em uma matéria da revista brasileira Pop, no final de 1978. Intitulava-se, bem viva na minha memória: "Punk: rock de protesto ou teatro de horror?". O texto dizia, basicamente, que os punks eram anárquicos, violentos e não sabiam tocar coisa alguma. Eu, começando a descobrir o rock progressivo, entendi de cara que o punk era o antagonista do que pretendia ouvir em matéria de rock.
No ano seguinte, Sid Vicious, baixista dos fundadores Sex Pistols e viciado em heroína matou, culposamente, a namorada Nancy (há filme razoável sobre a estória: Sid & Nancy, de 1986, com Gary Oldman no papel principal). Houve amplíssima cobertura no mundo ocidental e a revista Manchete deixou claro que o punk não era opção dos jovens de família. A minha opinião sobre o punk manteve-se de pé.
Em 1980 a Veja fez uma resenha sobre Sandinista! do Clash, um álbum triplo bem variado (muito bom e que não tem nada de punk) e deu para perceber, inclusive pela foto da resenha, que parte dos anarquistas queriam entrar para o sistema, - fato que não me preocupava aos quinze anos de idade -, mas pelo menos pretendiam aprender a tocar música, e eu pensei: qualidade musical, no rock, eu já ouço com Genesis e congêneres.
Em 1981 a revista Som Três publicou um especial, escrito pelo casal de jornalistas José Emílio Rondeau e Ana Maria Bahiana, com as dez melhores bandas de rock de todos os tempos. Segundo a revista eram elas: Beatles, Rolling Stones, Cream, Crosby, Steals, Nash & Young, Traffic, The Who, Yes, Pink Floyd e Sex Pistols. No mesmo ano, ao final, li O que é punk, de Antônio Bivar, da coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, um livro muito interessante que fazia um panorama da cultura jovem, inseria o punk no seu devido contexto e apresentava a Guerra de Estilos na música inglesa (começava a new wave, inicialmente um punk filtrado). Ao final, um capítulo com os punks paulistas: Clemente e os Inocentes, a coletânea Olho Seco e João Gordo com os Ratos do Porão.
Em 1982 os vídeos de God Save the Queen e Anarchy in UK, dos Sex Pistosls, foram exibidos algumas vezes no programa Onda 82, na TVE, e finalmente eu consegui ouvir música punk. Como eu não esperava grande coisa, não fiquei empolgado e nem decepcionado, mesmo porque: música de apenas três acordes?!... A chamada atitude do grupo valia como registro, pois de grosseria e bronquice já bastava os meus colegas da escola técnica, eu queria ser adulto, no entanto.
No mesmo ano fui pela primeira vez a São Paulo e lá vi os primeiros punks brasileiros. Achei legal a novidade, não tão atraente quanto os originais, mas não me deu vontade de ser um deles, isto não era para adolescentes tímidos de classe média bem familiar. Deste ano em diante todo mundo já conhecia o discurso: os punks eram jovens proletários em uma Inglaterra decadente reagindo contra a ausência de perspectivas, gravando singles por quinhentas libras arrumados com bicos ou com parentes, tocando músicas de três acordes, tudo isto em repulsa a bandas dinossáuricas que faziam um som viajandão e chegavam a cobrar absurdas quinze libras o ingresso, como o...Pink Floyd! (Quem pagou quinhentos e cinquenta reais por um ingresso do U2 ou seiscentos para ver Black Eyed Peas em playback, o que diria?!)
O Floyd foi vítima pelo fato de Johnny Rotten, o líder dos Pistols, usar uma camisa que afirmava odiá-los. Esta ladainha foi repetida adinfinitum pela imprensa britânica e copiada pelos lacaios da indústria fonográfica aqui na imprensa especializada da Terra brasilis, ao longo das décadas de oitenta e noventa. Não interessava às gravadoras verem garotos pagando três vezes o preço de um vinil por álbuns importados de progressivo e hard rock nas lojinhas especializadas dos grandes centros. Jornalistas muitas das vezes são empregados de empresas que vivem dos seus anúncios publicitários. Mas eles eram zelosos demais dos interesses dos seus patrões. A grande novidade de uma edição era repudiada nas edições seguintes em prol de outra grande novidade. O punk e seus descendentes tiveram todos os minutos de fama a que poderiam querer.
A revista Bizz afirmava que o som do progressivo eram "velhas fórmulas do Genesis e Yes", e ofereciam como alternativa qualquer bandinha medíocre idolatrada pela NME e Melody Maker. Eu engolia em seco e mantive as velas acesas para ambas opções: continuei fã de progressivo e dei crédito às novas bandas. Valeu a pena. Não perdi os setenta e nem os oitenta.
Em 1986 o clássico dos Sex Pistols Never Mind the Bullocks foi lançado no Brasil, e eu o adquiri na Presentex, uma lojinha de sertanejos do centro de Juiz de Fora que vendia vinis a preços incrivelmente baratos, por uma mágica comercial de seu proprietário que elegeu-se vereador em boa parte em função disto, segundo se dizia, e parece realmente ter sido assim. O impacto era mínimo, diante do lançamento de Psychocandy, do Jesus & Mary Chain, o qual também o perderia diante do Psalm 69 do Ministry, seis anos após. O Pink Floyd tem pelo menos meia dúzia de discos que impressionam, ainda hoje.
No final da década de oitenta o que mais se falava era sobre o fato das bandas punks se venderem ao sistema. Politicamente, o punk não deu um arranhão sequer no capitalismo. Musicalmente abriu espaços para centenas de boas bandas e dezenas de subdivisões da música pop. Mas quem deu ouvidos à cantilena anti-progressivo se deu mal:
"(...) de uns cinco anos para cá [2001], quando ouvi Meddle pela primeira vez e gostei de metade. E eu me senti meio enganado, porque quando estava na escola a crença popular pós-punk é de que o Floyd era um lixo"
Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead
Cf. REYNOLDS, Simon. Beijar o Céu. São Paulo: Conrad, 2006. Pág..187.
É impressionante que um músico, vivendo na Inglaterra, de classe média, universitário, integrante de uma banda tão importante, tenha ouvido um grupo como o Pink Floyd apenas vinte e cinco anos depois.
O mundo não é afetado pelo fato das pessoas ouvirem ou não ouvirem determinado tipo de música. Mas você, sim. O preconceito tem duas vítimas: o alvo dele e o seu agente.
Tias, nem só de testosterona vive este blog. As vossas combinações de estrogênio e progesterona vão gostar destas imagens. Mas não tenho culpa eu se o meu mensalinho e as vossas Bolsas Família Adams não podem comprar uma cabanadestas.
A dupla inglesa Pet Shop Boys, formada pelo cantor Neil Tennant e pelo tecladista Chris Lowe, estourou em 1985, com o single West End Girls, lançado no Brasil no início de 1986, um dos raros singles e eps que eu adquiri, devido à exploração de custarem o mesmo valor de um lp em Pindorama. Ouvi-os à exaustão, mas não acreditava que tamanho sucesso iria durar muito tempo. Lançamento após lançamento a dupla foi ganhando credibilidade - fora as grandes vendagens-, particularmente com a turnê que deu origem ao vídeo Performance (1991). Muito chegados à coletâneas, o PSB, com este Ultimate, no entanto, não repete o padrão da indústria fonográfica em matéria de compilações: quase tudo repetido, com exceção de algum acréscimo mixuruca de lados B ou alguma faixa insossa ao vivo, sabendo que os fãs mais acríticos vão adquirir o produto para poder ter a "coleção completa" dos seus -argh! - ídolos.
São três cds com mais de sessenta faixas (veja abaixo). O primeiro cd não é útil para quem já possui os originais. Mas valem bem a pena os Top of the Pops - programinha britânico de tv bem comercial mas no qual apresentaram 99% das bandas dos oitenta que eu gostei - e o show deste ano no festival de Glastonbury.
Disc: 1
1. West End Girls (2001 - Remaster)
2. Suburbia (2010 - Remaster)
3. It's A Sin (2001 - Remaster)
4. What Have I Done To Deserve This? (2001 - Remaster)
5. Always On My Mind (2003 - Remaster)
6. Heart (2010 - Remaster)
7. Domino Dancing (2003 - Remaster)
8. Left To My Own Devices (2001 - Remaster)
9. Being Boring (2001 - Remaster)
10. Where The Streets Have No Name (I Can't Take My Eyes Off You) (2003 - Remaster)
11. Go West (Radio Edit)
12. Before (2001 - Remaster)
13. Se A Vida e (That's The Way Life Is) (2001 - Remaster)
14. New York City Boy (US Radio Edit) (2003 - Remaster)
15. Home And Dry (2003 - Remaster)
16. Miracles (Radio Edit)
17. I'm With Stupid
18. Love etc.
19. Together (Ultimate mix)
Disc: 2
1. West End girls (BBC Top Of The Pops)
2. Love comes quickly (BBC Top Of The Pops)
3. Opportunities (Let's make lots of money) (Old Grey Whistle Test)
4. Suburbia (BBC Top Of The Pops)
5. It's a sin (BBC Top Of The Pops)
6. Rent (BBC Top Of The Pops)
7. Always on my mind (BBC Top Of The Pops)
8. What have I done to deserve this? (BRITS)
9. Heart (Wogan)
10. Domino dancing (BBC Top Of The Pops)
11. Left to my own devices (BBC Top Of The Pops)
12. So hard (Wogan)
13. Being boring (BBC Top Of The Pops)
14. Can you forgive her? (BBC Top Of The Pops)
15. Liberation (BBC Top Of The Pops)
16. Paninaro '95 (BBC Top Of The Pops)
17. Se a vida (BBC Top Of The Pops 2)
18. A red letter day (BBC Top Of The Pops)
19. Somewhere (BBC Top Of The Pops)
20. I don't know what you want but I can't give it anymore (BBC Top Of The Pops)
21. New York City boy (BBC Top Of The Pops)
22. You only tell me you love me when you're drunk (BBC Top Of The Pops)
23. Home and dry (BBC Top Of The Pops)
24. I get along (BBC Re:Covered)
25. Miracles (BBC Top Of The Pops)
26. Flamboyant (BBC Top Of The Pops)
27. I'm with stupid (BBC Top Of The Pops)
Disc: 3
1. Heart (Live at Glastonbury 2010)
2. Did you see me coming? (Live at Glastonbury 2010)
3. Love etc. (Live at Glastonbury 2010)
4. Building a wall (Live at Glastonbury 2010)
5. Go west (Live at Glastonbury 2010)
6. Two divided by zero (Live at Glastonbury 2010)
7. Why don't we live together? (Live at Glastonbury 2010)
8. New York City boy (Live at Glastonbury 2010)
9. Always on my mind (Live at Glastonbury 2010)
10. Closer to devices (Live at Glastonbury 2010)
11. Do I have to? (Live at Glastonbury 2010)
12. King's Cross (Live at Glastonbury 2010)
13. Jealousy (Live at Glastonbury 2010)
14. Suburbia (Live at Glastonbury 2010)
15. What have I done to deserve this? (Live at Glastonbury 2010)
16. All over the world (Live at Glastonbury 2010)
17. Se a vida e (Live at Glastonbury 2010)
18. Viva la vida (Live at Glastonbury 2010)
19. It's a sin (Live at Glastonbury 2010)
20. Being boring (Live at Glastonbury 2010)
21. West End girls (Live at Glastonbury 2010)
Não fui um adolescente ou jovem vidrado em carros. Somente tirei carteira e comprei meu primeiro veículo já com trinta e cinco anos. Durante a década de oitenta achava todos os carros feios. Mas a década de noventa incorporou o design, e aí alguns lançamentos - nacionais mesmo-, passaram a me chamar a atenção: o Tempra, o Palio, o Vectra, o Gol II e outros.
Na atual década os carros foram, e ainda são, uns dos meus assuntos prediletos, um dos que me integram ao clube do Bolinha, pois quase todo homem gosta de falar sobre eles. Acho impossível ficar indiferente diante destes modelos: